- É melhor se afastar um pouco, Amethista.
Apesar da voz de Yue permanecer calma como sempre, a garota pode perceber a tensão no ar.
O garoto e a garota na frente deles não pareciam ter nada de comum. Pelo menos quando comparados a todos os humanos que ela havia visto até então.
Estavam vestidos ambos de preto. O garoto, um pouco mais alto, tinha os olhos num tom verde tão vivo que parecia emitir luz própria, mantinha a cabeça baixa com a franja de cabelos prateados caindo a frente do rosto, mas sem impedir seu olhar sério de atingir Yue. Carregava na mão direita uma espada japonesa cuja lamina era tão longa quanto seu próprio corpo de não mais que quatorze anos.
Já a garota, igualmente séria, tinha os olhos alaranjados e o cabelo loiro, liso e comprido até sua cintura. Usava um vestido franjado que combinava com seus aparentemente dez anos. Estava de costas para seu parceiro e não se preocupava em focar Yue. Deixava pender das mãos uma foice presa por uma corrente e mesmo assim ainda tinha um ar fofo vinculado a sua forma infantil.
Amethista sentiu que era uma boa ideia obedecer e começou a se afastar alguns passos para trás sem desviar os olhos das duas figuras que barravam o caminho.
- Quem são eles? - ela perguntou enquanto tomava distância.
- Antigos companheiros... Talvez. - ele respondeu ao reconhecer o simbolo que os dois tinham tatuado nas mãos que carregavam as armas. - Ou algo do tipo...
- "Companheiros"? - repetiu o garoto em tom irônico. - Não me faça rir, Yue. Você sempre falou muita merda.
- Jahey... Você está falando palavrões de novo. - falou a pequena com frieza na voz enquanto olhava um pássaro pousado num galho de árvore.
- Desculpe Kaily. Esse cara me tira do sério.
Yue coçou a cabeça apenas com o dedo indicador da mão direita enquanto observava os dois com curiosidade.
- Me render, é? Bem... Isso vai ser meio problemático.
- Problemático? - repetiu Jahey.
- Acontece que no momento estou a caminho de um pic nic. Será que posso me render depois disso?
- Como é?! Seu filho da puta de merda! Tá de onda com a minha cara?!
- Jahey!!!
- Sabe como é... Estamos planejando isso já faz algum tempo e seria um desperdício. Temos muita comida. Querem nos acompanhar?
O garoto Jahey cerrou os dentes e apertou a espada entre os dedos. Seu rosto ficou vermelho quando o sangue lhe subiu e parecia fazer um grande esforço.
O que veio a seguir foi uma sucessão de xingamentos tão diversos e tão sujos que fariam um padre infartar. Logo em seguida um soco de Kaily atingiu o garoto no peito. O movimento não teve nada de demais, de fato poderia ser considerado até mesmo lento, mas foi o suficiente para arremessar o garoto metros para trás e fazê-lo atravessar uma árvore que estava no caminho.
A árvore caiu e seu tronco quase atingiu Yue, errando apenas por pouco mais de 1 centímetro e fazendo Amethista soltar um gritinho de susto. Ainda assim ele nem sequer se moveu.
- Eu avisei, Jahey.
- Desculpa, Kaily! - gritou o garoto de onde tinha ido parar.
- Vamos acabar com isso... - falou a garotinha, finalmente voltando sua atenção para Yue. - Peço desculpas, mas não podemos aceitar seu convite, senhor Yue. E uma vez que o senhor não deseja se render neste momento seremos obrigados a lutar.
- Não o chame de senhor!!! Droga, Kaily! Não precisa ser tão educada! - o garoto gritou novamente. Já estava de pé e parecia muito bem para quem havia acabado de levar um golpe tão forte.
- Bem... Entendi. Se esse é o caso, então... - replicou Yue.
A garota ergueu sua arma e entrou em posição de luta.
- Espere, Kaily! Eu acabo com esse viadinho de mer... Digo, com Yue Jaded. Eu acabo com ele.
Ela olhou para Jahey, deu de ombros e começou a baixar a arma.
- Espere! - foi a vez de Yue falar. - Posso pedir pra que venham os dois de uma só vez?
- Os dois?! - gritou Amethista de longe. - Yue! Não!
Como se sempre estivesse estado lá, um gato branco e um pouco gordo pulou do alto de uma árvore diretamente para perto dos pés de Amethista.
- Não se preocupe. - o gato falou. - Vai ser mais rápido desse jeito.
- Mas Ikaos...!
- Acredite em mim... Eu sei do que estou fa... lando. -a ultima parte saiu com o bocejo que foi seguido de uma espreguiçada antes de se deitar.
Do outro lado Kaily havia inclinado a cabeça para o lado e olhava para Yue com um certo ar de curiosidade.
- Idiota do caral... Digo... Você só pode ser muito burro, Yue Jaded. Eu sou mais que o necessário para acabar com você.
- Mas o gato tem razão, não acha? Se forem os dois será mais rápido... Que tal? - Yue olhou na direção de Kaily. - Por favor?
Imediatamente após ouvir as palavras de Yue, Jahey levou a mão vazia de encontro a cabeça e suspirou.
- Bem... Já que você pediu por favor... - respondeu Kaily enquanto reassumia sua posição de luta.
Yue também se preparou. Balançou a cabeça para um lado e para o outro estalando o pescoço, girou os ombros para trás e então parou exatamente como estava antes de fazer tudo isso.
- Podem vir quando quiserem. Estou pronto.
...E Jahey foi o primeiro.
Seu ataque veio na forma de um corte transversal tão rápido que Amethista só conseguiu entender o que havia acontecido quando viu Yue segurando a lamina entre o dedo indicador e polegar da mão direita como se fosse a coisa mais fácil do mundo.
Seu próximo movimento foi desviar a cabeça para o lado para se esquivar da foice de Kaily que fora lançada de algum lugar alto.
- Garotinha... - Yue falou. - Você ficaria muito triste se eu matasse seu amigo de boca suja?
Foi então que Amethista percebeu que Yue não apenas havia se defendido do ataque de Jahey usando apenas dois dedos como também tinha uma pequena esfera de energia concentrada na mão esquerda apontada para o coração do garoto.
- Terei de pedir que por favor não faça isso, senhor Yue. - respondeu a garota, rapidamente aparecendo atrás de Yue e desferindo um ataque que o obrigou a desistir de sua investida e saltar para o lado para se proteger.
- Já que você pediu por favor... Mas não vou deixá-lo escapar sem um belo castigo para aprender a respeitar seus "senpais".
E assim que disse isso a lamina da espada se partiu exatamente no ponto onde ele estava segurando.
- Filho da puta! - gritou Jahey fazendo com que Kaily olhasse feio para ele. - Minha espada!
- Ops... Desculpa aew. Talvez de pra colar com cuspe, garoto.
A sucessão de ataques que vieram depois disso foram muito mais rápidos, mais violentos e fizeram com que Yue Jaded se movesse mais do que esperava a principio.
Agora, apesar de ofegante, havia inutilizado ambas as armas e aguardava o próximo ataque.
Jahey também parecia estar bem cansado, no entanto Kaily ainda não tinha sequer começado a suar.
Amethista estava surpresa e se pegou até mesmo um tanto empolgada com o desenrolar da luta. Ikaos por outro lado estava esparramado no chão e dormia profundamente.
- Sabe qual é o grande problema do lugar de onde vocês vieram? - Yue começou a falar. - Eles não fazem a menor ideia do que estão fazendo.
Os ataques continuaram, mais fortes e mais intensos apesar da falta de armas. Kaily parecia especialista em condensar a energia em seu próprio corpo e isto tornava cada um de seus golpes talvez ainda mais pesado do que uma bola de demolição. Jahey por sua vez, sem a espada, havia ficado mais rápido e manipulava a energia ao redor para projetar ataques explosivos.
- Tudo o que eu queria era fazer um pic nic. Como é que eu vim parar nessa situação? Digo... Não é exatamente uma coisa que acontece todo dia, não é? Ou alguma coisa que planejamos... "Aaaah! Que ótimo dia para lutar com alguns pirralhos sem noção! Quem sabe não encontro alguns pelo caminho?!"
- Cala essa boca!!! - gritou Jahey.
- Essas crianças de hoje em dia não tem mais qualquer noção de respeito... - Yue continuava a falar enquanto se esquivava com facilidade. Até então todos os seus ataques haviam se concentrado em destruir as armas dos adversários. - Digo... A garotinha pelo menos é educada.
- Muito obrigada. - ela replicou enquanto chutava.... O ar. Yue já não estava mais lá para ser atingido.
- Espero que não fiquem muito chateados se eu os matar aqui.
- Não seria agradável, mas posso entender, senhor Yue.
- Pare de chamá-lo de senhor, droga! De que lado você está Kaily?!
E foi então que Yue mais uma vez se esquivou e o ataque que a garotinha havia destinado para ele acabou por atingir por engano seu próprio companheiro.
Jaded aproveitou o momento de surpresa para atingir Kaily com um soco na barriga. O golpe foi forte o suficiente para erguê-la do chão e em seguida um chute giratório a arremessou para cima e ao encontro de Jahey. Ambos se chocaram contra a mesma árvore. Primeiro um e depois o outro caindo amontoados no chão.
O próximo movimento de Yue foi concentrar uma grande quantidade de energia a frente de sua mão e arremessar ao lado dos dois, mas ainda próximo o suficiente para a explosão fazê-los voar.
Eles não tiveram tempo de levantar. Yue fez este trabalho por eles ao agarrá-los por seus pescoços e os erguer acima de sua cabeça, um em cada mão.
Por um instante a expressão em seu rosto se tornou tão cruel que mesmo Amethista teve medo. Ikaos também já se encontrava acordado e observava a cena com curiosidade. Mas Yue simplesmente largou os dois no chão...
- Senhorita Kaily, certo? - Yue se abaixou e a encarou enquanto ela tossia e acenava um sim com a cabeça. - Imagino que não queira morrer... Então... Me daria licença para que eu vá para meu pic nic agora? Por favor?
A garota o encarou seriamente e pareceu ponderar por um instante, mas... O que poderia realmente fazer?
Então, sem ouvir resposta, Yue piscou um olho e se levantou. Acenou para Amethista e Ikaos e os três voltaram a seguir caminho.
- Você é mais forte do que eu esperava. - Amethista começou a dizer logo que se aproximou. - Quem eram eles afinal?
- Ex-colegas... Ou coisa do tipo.
- De trabalho?
- Acho que podemos dizer que sim...
Eles se afastaram conversando enquanto Kaily e Jahey apenas observavam, ainda no chão.
Foi o garoto que quebrou o silêncio entre eles.
- ...Mas que cuzão. - foi o que disse antes de um forte soco de Kaily o atingir e o arremessar para longe. - Desculpa!!!
sábado, 7 de junho de 2014
quinta-feira, 5 de junho de 2014
Tempuria: O Pilar de Luz Negra - Parte 01
Os três "jaskots" se reuniram em Tempuria.
Não se sabe há quanto tempo aquele mundo se encontrava naquela situação, mas com certeza não era pouco.
Um mundo congelado em sombras. Inerte e sem vida.
O pilar de luz negra emergia do centro daquele gigantesco e antigo mecanismo. Os circulos de pedra que antes formavam o piso do local agora rodavam e giravam uns dentro dos outros e ao redor de si mesmos. ainda assim, nenhum som podia ser ouvido.
Atraídos pelo pilar os viajantes de moveram.
Para eles, naquela situação, era apenas necessário pensar para onde desejavam se deslocar e desde que o local estivesse em seu campo de visão ou fizesse parte de sua memória, imediatamente apareceriam ali.
Agora estavam na plataforma central do mecanismo. Os círculos giravam a seu redor enquanto diante deles o pilar se erguia imponente para o alto.
A energia era intensa e em relação ao tamanho de toda a construção ao redor eles não passavam de insetos.
Conversavam entre si a respeito do que deveriam fazer, mas de fato nenhum dos três parecia ter uma ideia conclusiva.
Dois deles decidiram subir as escadarias e confrontar a energia do pilar enquanto o terceiro ainda se mantinha distante, buscando talvez outra solução.
Era forte demais... Intenso demais...
Cada degrau que escalavam em direção a densa luz negra era como um atentado contra a própria existência. Ainda assim eles persistiram em seu intento.
Talvez fosse por coragem, talvez desconhecessem as consequências de seus atos ou simplesmente não soubessem o que mais poderiam fazer, mas a cada degrau que subiam também perdiam uma parte de seus corpos imateriais e de suas mentes.
Ainda naquele lugar, do alto e sem que eles notassem, uma mulher observava o cenário sem conseguir enxergá-los.
Em toda Tempuria aquele era o único lugar onde alguma coisa ainda se movia. O lugar onde tudo havia começado e onde ela, Nayri, acreditava que poderia acabar. Por este motivo, não raramente ela voltava ali.
Seu cabelo negro e liso estava mais comprido do que jamais esteve antes e mesmo sua aparência jovem agora havia se transformado na de uma mulher madura, o equivalente talvez a trinta anos humanos. Vestia uma armadura semi destruída além de suas roupas velhas e rasgadas enquanto que mantinha seus olhos firmemente voltados para a plataforma central do mecanismo.
Os mesmos olhos negros que ainda naquela escuridão podiam refletir um estranho brilho vermelho. Os mesmos olhos que agora duvidavam do que havia acabado de ver.
Por mais que Dracos pudessem viver em isolamento por muito tempo, nunca se teve noticias de um que vivesse sequer por tanto tempo, quanto mais sozinho. Ainda assim, lá estava ela, superando os da sua própria mais uma vez.
Primeiro ela pensou estar vendo coisas. Não seria a primeira vez que sua mente lhe pregava peças. Havia se acostumado as miragens e talvez já estivesse meio louca por conta delas, ainda assim procurou observar melhor.
O que seriam aquelas vibrações na plataforma? Aquelas oscilações na energia e no espaço como o ar quente que exala do piso quente no verão que ela nunca havia visto antes?
Não havia mais duvidas... Eram seres vivos... Pessoas...?
Não. Não apenas pessoas...
Ela se levantou se moveu para um lugar de onde podia observar melhor. De onde podia sentir melhor...
- Jaskots... Jaskots estúpidos... - ela sussurrou para si mesma e o pensamento a invadiu com uma revolução de emoções enquanto observava a tênue vibração e energia de dois dos viajantes quase desaparecendo em meio a intensa energia do pilar de luz.
Por um momento ela não soube o que fazer. Talvez estivesse tempo demais sozinha ou não acreditasse no que estava acontecendo. Uma parte de si chegou até mesmo a torcer para que fosse uma miragem. Mas ainda assim só restou fazer o que fez.
- É melhor tomar cuidado! - ela gritou antes de saltar para se aproximar e este foi o primeiro som que os viajantes ouviram desde que chegaram naquele lugar.
Não se sabe há quanto tempo aquele mundo se encontrava naquela situação, mas com certeza não era pouco.
Um mundo congelado em sombras. Inerte e sem vida.
O pilar de luz negra emergia do centro daquele gigantesco e antigo mecanismo. Os circulos de pedra que antes formavam o piso do local agora rodavam e giravam uns dentro dos outros e ao redor de si mesmos. ainda assim, nenhum som podia ser ouvido.
Atraídos pelo pilar os viajantes de moveram.
Para eles, naquela situação, era apenas necessário pensar para onde desejavam se deslocar e desde que o local estivesse em seu campo de visão ou fizesse parte de sua memória, imediatamente apareceriam ali.
Agora estavam na plataforma central do mecanismo. Os círculos giravam a seu redor enquanto diante deles o pilar se erguia imponente para o alto.
A energia era intensa e em relação ao tamanho de toda a construção ao redor eles não passavam de insetos.
Conversavam entre si a respeito do que deveriam fazer, mas de fato nenhum dos três parecia ter uma ideia conclusiva.
Dois deles decidiram subir as escadarias e confrontar a energia do pilar enquanto o terceiro ainda se mantinha distante, buscando talvez outra solução.
Era forte demais... Intenso demais...
Cada degrau que escalavam em direção a densa luz negra era como um atentado contra a própria existência. Ainda assim eles persistiram em seu intento.
Talvez fosse por coragem, talvez desconhecessem as consequências de seus atos ou simplesmente não soubessem o que mais poderiam fazer, mas a cada degrau que subiam também perdiam uma parte de seus corpos imateriais e de suas mentes.
Ainda naquele lugar, do alto e sem que eles notassem, uma mulher observava o cenário sem conseguir enxergá-los.
Em toda Tempuria aquele era o único lugar onde alguma coisa ainda se movia. O lugar onde tudo havia começado e onde ela, Nayri, acreditava que poderia acabar. Por este motivo, não raramente ela voltava ali.
Seu cabelo negro e liso estava mais comprido do que jamais esteve antes e mesmo sua aparência jovem agora havia se transformado na de uma mulher madura, o equivalente talvez a trinta anos humanos. Vestia uma armadura semi destruída além de suas roupas velhas e rasgadas enquanto que mantinha seus olhos firmemente voltados para a plataforma central do mecanismo.
Os mesmos olhos negros que ainda naquela escuridão podiam refletir um estranho brilho vermelho. Os mesmos olhos que agora duvidavam do que havia acabado de ver.
Por mais que Dracos pudessem viver em isolamento por muito tempo, nunca se teve noticias de um que vivesse sequer por tanto tempo, quanto mais sozinho. Ainda assim, lá estava ela, superando os da sua própria mais uma vez.
Primeiro ela pensou estar vendo coisas. Não seria a primeira vez que sua mente lhe pregava peças. Havia se acostumado as miragens e talvez já estivesse meio louca por conta delas, ainda assim procurou observar melhor.
O que seriam aquelas vibrações na plataforma? Aquelas oscilações na energia e no espaço como o ar quente que exala do piso quente no verão que ela nunca havia visto antes?
Não havia mais duvidas... Eram seres vivos... Pessoas...?
Não. Não apenas pessoas...
Ela se levantou se moveu para um lugar de onde podia observar melhor. De onde podia sentir melhor...
- Jaskots... Jaskots estúpidos... - ela sussurrou para si mesma e o pensamento a invadiu com uma revolução de emoções enquanto observava a tênue vibração e energia de dois dos viajantes quase desaparecendo em meio a intensa energia do pilar de luz.
Por um momento ela não soube o que fazer. Talvez estivesse tempo demais sozinha ou não acreditasse no que estava acontecendo. Uma parte de si chegou até mesmo a torcer para que fosse uma miragem. Mas ainda assim só restou fazer o que fez.
- É melhor tomar cuidado! - ela gritou antes de saltar para se aproximar e este foi o primeiro som que os viajantes ouviram desde que chegaram naquele lugar.
terça-feira, 3 de junho de 2014
Yue e Amethista - Passado
Post mood: Cowboy Bebop - Gotta Knock a Little Hard
- E que diferença faz se ela estiver certa ou não?
- Sua vida poderia ter sido diferente. Mesmo agora ela ainda pode se tornar completamente diferente.
- Todos os dias são diferentes, Amethista. E isso não tem relação com o fato de alguém estar certo a meu respeito ou não.
- Você entendeu o que eu quis dizer. - ela replicou enquanto dava um leve chute no ombro do parceiro.
É claro que ele havia entendido.
O simples fato de estarem ali depois de tanto tempo significava isto.
Amethista pulou de onde estava e os dois começaram a caminhar em silêncio. O vento soprava frio contra seus corpos e a garota se encolheu em seu casaco. Yue no entanto parecia não sentir. Estava imerso em seus pensamentos.
Contornaram o lago e começaram a subir uma certa rua. Rapidamente ele percebeu como as coisas estava diferentes apesar de alguma coisa dentro dele jurar que aquele lugar nunca iria mudar. Talvez fosse o que esperasse num desejo inconsciente... Mas o que é que realmente nunca muda?
Algumas quadras para cima e era hora de virar a direita.
As pessoas daquele lugar pareciam tão desconfiadas quanto de costume e olhavam curiosos para Yue e Amethista em seus trajes estranhos que deixava bem claro que não eram da cidade.
- Nossa... As coisas realmente mudaram por aqui, não é mesmo? - Amethista comentou enquanto olhava ao redor. - Para onde vamos agora?
- Você sabe para onde vamos.
- Só queria confirmar. - e sorriu. A garota estava sendo especialmente provocativa naquele dia. - Você vai parar para um chá ou coisa do tipo?
Yue não se deu o trabalho de responder, apenas continuou procurando o lugar certo com o olhar. Será que ainda estaria lá?
- Você acha que errou, Yue? - Amethista perguntou de repente e sem qualquer cerimonia.
Ele parou de andar.
Ainda não haviam chegado ao destino, mas ele não esboçou mais qualquer movimento depois de ouvir a pergunta de Amethista.
Se ele havia errado? Bem...
- Não precisa responder se não quiser, mas pelo menos uma vez eu gostaria de saber como você realmente se sente a respeito de algo.
Não era apenas por curiosidade que a garota estava perguntando e Yue pode sentir a preocupação que ela carregava na voz..
E como é que ela não estaria preocupada? Não era tão simples assim afinal, não é mesmo?
Ele não estava sozinho.
Ali, logo atrás dele, estava Amethista... A realizadora de desejos que inicialmente fora criada com um único propósito.
...Um propósito nunca atingido e agora talvez perdido para sempre em meio as ruínas de um passado complicado..
E então... Se ele achava que havia errado...?
Yue se virou para Amethista e a encarou com seu olhar sério. Ele tinha um meio sorriso estampado no canto dos lábios que dificultava saber o que se passava em sua cabeça e coração.
- Errar é perigoso, Amethista. - ele falou. enquanto erguia o punho fechado e o apontava pra garota. - E talvez eu seja um homem perigoso por errar tanto e pro tudo o que errei até hoje. Mas talvez o que você realmente queira saber é se eu me arrependo...
- E você se arrepende?
Ele baixou a mão e o braço e olhou para o céu. Algumas nuvens brancas passavam devagar por aquela imensidão azul que o lembrava de uma certa baixinha. Yue não conseguiu evitar sorrir diante da recordação e seus olhos brilharam com a claridade do dia.
Amethista o observava com atenção. Ele respondeu de olhos fechados e sentindo o vento gelado soprar contra seu rosto.
- Eu sou metido... Sou arrogante... Sou presunçoso... E muito egoísta. Arrependimento não é uma coisa que combina comigo, não acha? - e então se virou para encarar a garota diretamente nos olhos.
Ali estava.
Aquela expressão de desafio que há muito tempo Amethista não via.
A expressão que Yue tinha estampada no rosto em cada uma das ocasiões que subjugou um inimigo mais forte ou estava prestes a fazer algo terrivelmente insano ou idiota.
- Não... Realmente não combina em nada com você.
Ela se aproximou e deu um soco leve contra o peito de Yue.
Naquela único momento, com palavras tão simples, era como se um peso tivesse sido retirado de seus corações.
- Qual é o seu desejo, senhor Yue Jaded?
- Vamos embora daqui. Cansei desse povo olhando pra gente como se fossemos alienígenas.
- Que? E a visita para o chá?
- Eu passo! Se quiser você sabe onde encontrar a Sayaka e o Karasu.
- Você realmente não entende uma piada, não é mesmo?
segunda-feira, 2 de junho de 2014
Yue e Rebeca: Fúria
Post mood: Ellegarden - Space Sonic
Ele fincou a espada no chão e a usou para se levantar.
Seu corpo estava ferido em diversas partes. Algumas escoriações e arranhados de todas as vezes que foi arremessado e outros tantos cortes feitos pela espada do adversário.
Seu sangue escorria e se misturava com a sujeira e o suor.
...Mas ele não ligava.
- Vai arrancar minha cabeça? É mesmo?
A voz do adversário era irônica e acompanhada de um sorriso.
Em comparação a Yue ele estava em ótimo estado. Era mais forte, mais alto e seu único ferimento era um corte não muito profundo no braço esquerdo.
Usava uma meia armadura que protegia seu tronco e botas de metal que não pareciam atrasar em nada sua movimentação.
Os olhos do adversário eram de um tom azulado quase cinza e o cabelo loiro curto caindo suado a frente do rosto só aumentava sua expressão de desafio.
Os olhos do adversário eram de um tom azulado quase cinza e o cabelo loiro curto caindo suado a frente do rosto só aumentava sua expressão de desafio.
Yue não perdeu tempo. Assim que terminou de se por de pé já partiu para mais um ataque obstinado e carregado de ódio.
O primeiro ataque foi aparado pelo adversário e suas pesadas espadas se encontraram numa chuva de faíscas. Afastaram-se e voltaram a pular um sobre o outro, chocando as armas uma vez após a outra em pesados golpes.
A altura do adversário lhe dava vantagem no movimento e por mais que Yue, sem armadura nenhuma, fosse ágil como um gato, ainda assim alguns golpes acabavam o atingindo de raspão. Foi dessa forma que acumulou os cortes. Já as escoriações era devido a força do adversário que volta e meia o empurrava ou jogava para trás. Nessas ocasiões Yue era obrigado a rolar como podia e voltar o mais rápido possível para uma postura defensiva.
- Quando eu acabar com você, não vai sobrar nada. - Yue continuou a falar. - Eu vou arrancar a carne dos seus ossos... E faço questão de te deixar vivo até o ultimo momento para sinta tudo.
- Palavras ousadas para quem está prestes a morrer! - replicou o adversário enquanto desferia mais um dentre tantos golpes que haviam jogado Yue para trás.
...Mas não importava.
Não importava quantas vezes Yue fosse levado ao chão. Não importava quantas vezes fosse arremessado ou atingido de raspão.
Ele se colocava rapidamente de pé e de imediato partia para um novo ataque.
Não havia pausa para recuperar o folego. Não havia pausa alguma!
Apenas uma sucessão de investidas carregadas de raiva que começavam a pesar sobre o adversário que não conseguia atingir um ataque critico sequer apesar de já ter tentado de tudo.
A principio ele quis eliminar Yue o mais rápido possível e focava sua cabeça ou seu tronco, mas com a agilidade do garoto a tarefa não era assim tão simples. Mudou seu plano e passou a objetivar as pernas e talvez os braços, eliminar um membro qualquer para que Yue parasse de mover. Desde então não havia conseguido nada além de gerar arranhões com a ponta de sua espada e acumular cansaço.
- Eu vou fazer você sangrar! - Yue gritou quando mais uma vez competiam força com espadas cruzadas. O adversário impunha seu peso sobre a arma e ainda assim o garoto resistia. - Eu vou fazer você sentir dor!!!
Eles se moviam e forçavam as armas uma contra a outra até Yue gritar e girar seu corpo num impeto de violência. Foi a primeira vez que o adversário foi empurrado e estaria morto se não fosse por sua armadura.
A espada de Yue abriu um rasgo no metal como se fosse feito de papel, mas ele não parou por aí.
Mais uma vez avançou para o ataque e mais uma vez as espadas se chocaram.
- Vou começar arrancando seus dedos... E então sua mão... E eu vou cortar cada pedaço de você até não sobrar nada! - o garoto continuava discursando enquanto atacava e o adversário já não tinha mais forças para responder.
Na verdade ele já não se sentia mais seguro de que conseguiria escapar.
Estava afundando naquela situação enquanto Yue, movido pela raiva, mantinha seus ataques crescendo sem parar. Cada vez mais fortes, cada vez mais pesados e sempre tão contínuos....
E então o próximo ataque veio... E mais um... E o último.
A espada do adversário voou pelo ar. Yue largou a sua simultaneamente e sem perder tempo pulou sobre o adversário desferindo um forte soco em seu rosto.
Os dois foram ao chão e Yue sobre o grande homem não parou de bater.
De onde vinha toda aquela raiva?
O homem não tinha mais qualquer força para reagir, estava largado de costas no chão com Yue sobre ele segurando-o pelo pescoço com a mão esquerda e erguendo a direita em punho cerrado pronto para socar.
A unica coisa que conseguia era torcer para que tudo acabasse ali e aquele demônio furioso não levasse a cabo as torturas que disse que faria.
Yue estava pronto pra desferir o golpe de misericórdia quando foi atingido.
Em poucos segundos ele estava sendo arremessado ao chão por alguma outra pessoa que vinda de um ponto cego simplesmente pulou sobre ele.
- Yue... - ele ouviu uma voz familiar chamar no breve momento em que ainda estava de olhos fechados.
Ali, de costas contra o solo, ele sentiu o abraço quente apertar seu corpo dolorido e aquele perfume entrar em seus pulmões. Sua mão, ainda fechada e pronta para socar, começou a relaxar até se abrir completamente e repousar sobre os cabelos da garota que tinha a cabeça apoiada contra seu peito.
"...Rebeca."
domingo, 1 de junho de 2014
Yue e Rebeca - Cena na Sacada
- Eu pensei que você não gostasse de festas. - Rebeca falou enquanto se aproximava sorrateiramente. - Apesar de que... Pra você ficar aqui sozinho por tanto então realmente não deve gostar.
Yue virou a cabeça lentamente e fitou a garota.
Ela estava em um vestido vermelho sem decote que terminava pouco acima do joelho e combinava com seus olhos. Havia um grande laço nas costas acima do quadril e o par de fitas descia simetricamente em relação as suas pernas definidas. Seus cabelos igualmente vermelhos estavam cada vez mais compridos e apesar de já atingirem a altura dos ombros, naquela ocasião estavam presos em um penteado que deixava duas mexas da franja caindo uma de cada lado do rosto. Atrás da cabeça o cabelo estava preso em um rabo de cavalo enfeitado com pedras brilhantes.
Ela segurava na mão esquerda uma taça ainda bem cheia de vinho e na outra seu par de sapatilhas.
- E aí... Que tal? - disse ela enquanto dava uma volta ao redor de si mesma.
Rebeca tinha pouco mais de 1,60m de altura, era magra e não muito encorpada, mas naquela ocasião, mesmo se quisesse, Yue não teria como negar...
- Você está linda, Rebeca. - ele respondeu.
E ela realmente estava.
A garota sorriu e bebeu mais um pouco de vinho enquanto se aproximava de Yue, que novamente havia desviado sua atenção para as estrelas no céu.
Ela colocou suas sapatilhas sobre a murada e depois apoiou a mão direita sobre o ombro do parceiro.
- E aí, o que está procurando no céu?
- Nada em especial.
- Sei... O caminho de casa talvez?
- Talvez...
Havia algo de estranho no comportamento da garota e ele podia perceber. Talvez fosse apenas a bebida, mas imediatamente desviou seu olhar na direção de Rebeca e fez uma cara desconfiada.
- O que você está tramando, Rebeca?
- Tramando? Eu?! Hahaha!!! - e levou a taça até a boca enquanto que com o canto dos olhos procurou olhar para Yue para ver se ele a estava olhando... E que droga, ele estava. Perceber isto fez com que seu gole de vinho se transformasse na taça inteira descendo por sua garganta de uma só vez.
- Quanto você já bebeu? - ele perguntou logo em seguida.
Ela colocou a taça ao lado das sapatilhas sobre a murada e suspirou profundamente recuperando o folego.
- Não o suficiente, pelo visto.
Dessa vez Yue virou o corpo todo na direção da garota e a olhou com olhos ainda mais desconfiados.
Ela, percebendo o movimento, tratou de desviar o olhar para qualquer outro canto que não fosse onde ele estava.
Mas ela podia sentir. Mesmo sem ver ela sabia que ele continuava ali parado a encarando pelas costas com sua cara de "O que você está aprontando, mocinha?". Por quantas vezes eles haviam passado por situações parecidas desde que Yue Jaded havia se tornado seu Protetor?
Pensar nisso a fez sorrir. "E pensando bem... Que se dane."
Ela virou de uma só vez, o encarou nos olhos e falou impetuosamente:
- Você tem que dançar comigo!
..."Não... Pera... Como assim 'Que se dane'?!"
Os segundos constrangedores que sucederam sua ousada ordem foram suficientes para ela concluir que talvez realmente já tivesse bebido demais, mas ainda não o suficiente para não se lembrar da vergonha que estava sentindo naquele momento.
A demora de Yue para responder parecia de propósito e Rebeca apenas o encarou a principio, mas logo surgiu uma imensa vontade de escapar para dentro do salão.
A demora de Yue para responder parecia de propósito e Rebeca apenas o encarou a principio, mas logo surgiu uma imensa vontade de escapar para dentro do salão.
Ela mal teve tempo de desviar seu olhar para lá e tentar se mover quando Yue a segurou pela mão.
- Melhor calçar suas sapatilhas, senhorita Rebeca. - ele falou e a garota lentamente voltou sua atenção novamente para ele. - A menos que queira dançar descalça, é claro.
Rebeca calçou as sapatilhas apenas com a mão esquerda.
Mais tarde ela não conseguiria recordar se havia sido ele quem continuou segurando sua mão ou se foi ela que se recusou a soltar depois de terem se unido daquela forma. Fosse como fosse, ainda estavam de mãos dadas quando terminou de calçar.
- Pronto. - ela falou e sua voz saiu mais como um sussurro.
- Já que podemos ouvir a musica daqui, que tal se dançarmos aqui mesmo?
- Aqui...? - ela perguntou enquanto olhava ao redor. Estavam sozinhos naquela grande sacada sob um estrelado céu noturno de verão.
- Prefere lá dentro?
- Não! Não! Aqui! Com certeza aqui! Aqui está ótimo!
Yue sorriu diante da reação da garota e ela acabou sorrindo também por consequência.
Ele envolveu sua cintura com a mão direita e a puxou suavemente para mais perto de si. Os primeiros passos foram desajeitados, mas logo os dois estavam lentamente dançando ao som da música que a orquestra tocava no interior do salão.
- Yue... - ela falou enquanto apoiava encostava sua cabeça no peito do parceiro.
- Sim?
- Se você pisar no meu pé... Eu te juro que te mato.
sábado, 31 de maio de 2014
Palavras
Post mood: Mega Man 3 OC Remix - The Passing of the Blue Crown
Não tenho mais a capacidade de distinguir entre o certo e o errado. Justo e injusto... Bom e mal...
Abandonei em algum lugar do passado as coisas que me aproximavam desse tipo de vida.
Talvez tenha deixado passar a própria vida como é conhecida.
Me confundo constantemente. Isso pra mim é normal.
Já que crer em qualquer coisa é sempre tão complicado. A duvida é que é rotina.
E na incerteza da realidade contínua... Do momento contínuo.
Continuo o tempo todo vivendo o tempo que me resta...
...Se é que resta algum.
Digo o que quero dizer a hora em que preciso.
Mas não sei determinar o que é necessidade...
Sentir as coisas como eu sinto é como estar adormecido.
Sonhando acordado com o horizonte infinito.
Cada passo em sua direção é uma frustração, uma agonia.
O objetivo inalcançável de uma verdade esquecida.
Me agarro em mim mesmo. Me abraço.
E por vezes eu simplesmente olho no espelho...
Bom dia...
Aqui estou mais uma vez... Como sempre...
Aqui estou como nunca estive antes.
Dizendo a todos as mesmas coisas que já dizia.
Palavras e mais palavras...
E nem metade do que eu gostaria...
sexta-feira, 30 de maio de 2014
Yue e Amethista: Cena na Torre
Era uma destas tardes de outono.
Do lado de fora a chuva caía fria e em gotas finas que escorriam pela janela de vidro. O céu estava nublado e nem sequer havia muito vento. Apenas aquele gotejar monótono e contínuo que facilmente nos coloca pra dormir.
Do lado de dentro o fogo ardia na lareira onde uma grande chaleira havia sido pendurada e começava a fumegar.
Havia ali também, no centro da sala sobre o piso de pedra um grande tapete felpudo, de fios altos e marrons onde um gato gordo e de pelo branco dormia confortavelmente. Estava esparramado daquele jeito que somente os gatos sabem fazer.
As poltronas pareciam meio velhas, mas ainda confortáveis. Nas paredes algumas prateleiras repletas de livros e objetos estranhos que não era fácil distinguir o que realmente era decoração ali.
Todo aquele cenário parecia dançar calmamente sob a iluminação do fogo, o que deixava Amethista ainda mais entediada.
A garota sentada numa cadeira de madeira e debruçada sobre os braços apoiados no batente da janela.
As vezes olhava para fora.... As vezes para seu reflexo...
As vezes olhava para uma gota qualquer que escorria no vidro e então de repente não estava olhando pra nada.
Ela já estava piscando mais do que o normal, passando mais tempo com as pálpebras fechadas que abertas quando a chaleira começou a apitar.
- Quanta emoção... - ela resmungou consigo mesma. - A água do chá está pronta. Uauu... Acho que vou infartar de tanta empolgação.
Voltou sua atenção para a lareira e movendo suas mãos no ar fez a chaleira flutuar de onde estava diretamente para a mesinha que ficava próxima a uma das poltronas.
O gato ao ouvir o som abanou o rabo uma unica vez. Talvez apenas para dar mostras de que ainda estava vivo.
Amethista se levantou e decidiu terminar o trabalho com as próprias mãos.
Pegou um dos objetos estranhos que decoravam o lugar, encheu de ervas e mergulhou diretamente dentro da chaleira.
Realizou esta tarefa com o mesmo cuidado que um rinoceronte teria ao tentar passar um fio pelo buraco de uma agulha.
...Então se largou sentada na maior e mais larga das poltronas individuais que havia ali.
- Ikaos. - ela chamou. - Acorda seu gato gordo. Vai chamar o Yue. O chá está pronto.
O gato nem se moveu. Estaria realmente morto?
- Ikaaaooos... - Amethista chamou novamente, sem animo. - Anda... Levanta...
Mais uma vez o gato não se moveu.
Ainda sentada na poltrona, Amethista se curvou para frente e passou a encarar o gato com seriedade.
Apertou seus olhos e prestou atenção. Sua iris roxa reluzia por entre as pálpebras com a luz do fogo enquanto ela mordia levemente o canto do lábio inferior, mantendo-se em silêncio e respirando baixinho.
Por alguns instantes o único som além da chuva e do crepitar do fogo era o de um relógio em outro comodo. E por alguns segundos Amethista realmente achou que Ikaos podia ter morrido... Pelo menos até ele levantar e baixar seu rabo em um movimento único.
A garota se pegou em duvida se ficava alegre por ainda haver vida naquele bicho preguiçoso ou se estava decepcionada...
- Pelo menos teria sido alguma agitação... - resmungou novamente consigo enquanto levantava e decidia ir ela mesma até Yue.
Mais uma vez com o movimento dos dedos fez a chaleira flutuar.
- Por favor, siga-me dona chaleira...
E então saiu daquela sala para uma outra ainda maior onde começou a subir uma escaria de madeira.
O resto da Torre, como era chamada aquela casa estranha, não estava tão quente quando a sala da lareira e por um momento ela sentiu frio. Também não estava tão bem iluminada e a pálida luz de fora acabava gerando sombras em móveis e objetos que assumiam um aspecto assustador.
...Mas não se pode dizer que ela estava assustada. Na verdade, talvez até se alegrasse caso visse um monstro ou fantasma, mas eram apenas móveis e velharias.
Ela parou diante de uma porta de madeira.
- Yue, trouxe o chá. - e bateu na porta enquanto a chaleira flutuava perto dela. - E é melhor que você queira chá. Por que se você não quiser...
Ninguém respondeu do lado de dentro do quarto.
- Yue? - ela chamou novamente enquanto batia outra vez. - Você está me ouvindo? Yue...
Um arrepio correu por sua espinha quando mais uma vez ninguém respondeu, mas talvez fosse apenas frio...
Olhou para baixo e viu uma estranha e oscilante luz saindo da fresta sob a porta.
Sua mão imediatamente subiu em direção a maçaneta.
Ela segurou firmemente e pensou duas vezes antes de girar. Mas girou... E a porta começou a se abrir devagar.
A luz de um ensolarado dia começou a escapar e a cegou brevemente ao mesmo tempo em sentia um calor de verão sendo soprado contra seu corpo pelo vento que emanava de dentro do quarto.
Seus olhos então se acostumaram com a luz e a porta que antes dava para o quarto de Yue, que ficava no alto daquela construção, provavelmente o equivalente ao quinto andar de um prédio, agora era a passagem para um bosque campo verdejante e ensolarado.
A chaleira que até então estava flutuando atrás de Amethista foi direto ao chão. Seu queixo também teria ido, mas uma vez preso pelos músculos da bochecha ele se contentou em ficar largado em boca aberta.
A garota ainda virou para o lado afim de observar a janela que havia no final do corredor, mas do lado de fora a mesma chuva vinda do céu cinza ainda caía.
Ela estava prestes a entrar quando alguém a segurou pela mão, entrelaçando seus dedos com os dela e fazendo a garota desviar a atenção.
Amethista se virou e contemplou Yue.
- Acho melhor deixarmos esse quarto fechado por enquanto, Amethista. - e com cuidado ele começou a puxar a porta para fechar.
- Mas... Por que? Esse lugar é lindo!
- Realmente é lindo, mas... - ele fez uma pausa proposital em seu discurso enquanto fechava e abria novamente a porta. Dessa vez não havia nada ali senão o seu velho e gelado quarto.- ...Prefiro não te perder pra ilusões.
Dessa vez Amethista entrou no quarto e começou a olhar ao redor, incrédula.
- Como você fez isso? - ela finalmente perguntou, depois de alguns segundos.
- Você quer mesmo saber?
- Claro que sim!!! - estava eufórica.
- Eu troco a informação por chá...
- Chá...?
"AAAAAAAAAH!!!! O CHÁÁÁÁ!!!!"
Do lado de fora a chuva caía fria e em gotas finas que escorriam pela janela de vidro. O céu estava nublado e nem sequer havia muito vento. Apenas aquele gotejar monótono e contínuo que facilmente nos coloca pra dormir.
Do lado de dentro o fogo ardia na lareira onde uma grande chaleira havia sido pendurada e começava a fumegar.
Havia ali também, no centro da sala sobre o piso de pedra um grande tapete felpudo, de fios altos e marrons onde um gato gordo e de pelo branco dormia confortavelmente. Estava esparramado daquele jeito que somente os gatos sabem fazer.
As poltronas pareciam meio velhas, mas ainda confortáveis. Nas paredes algumas prateleiras repletas de livros e objetos estranhos que não era fácil distinguir o que realmente era decoração ali.
Todo aquele cenário parecia dançar calmamente sob a iluminação do fogo, o que deixava Amethista ainda mais entediada.
A garota sentada numa cadeira de madeira e debruçada sobre os braços apoiados no batente da janela.
As vezes olhava para fora.... As vezes para seu reflexo...
As vezes olhava para uma gota qualquer que escorria no vidro e então de repente não estava olhando pra nada.
Ela já estava piscando mais do que o normal, passando mais tempo com as pálpebras fechadas que abertas quando a chaleira começou a apitar.
- Quanta emoção... - ela resmungou consigo mesma. - A água do chá está pronta. Uauu... Acho que vou infartar de tanta empolgação.
Voltou sua atenção para a lareira e movendo suas mãos no ar fez a chaleira flutuar de onde estava diretamente para a mesinha que ficava próxima a uma das poltronas.
O gato ao ouvir o som abanou o rabo uma unica vez. Talvez apenas para dar mostras de que ainda estava vivo.
Amethista se levantou e decidiu terminar o trabalho com as próprias mãos.
Pegou um dos objetos estranhos que decoravam o lugar, encheu de ervas e mergulhou diretamente dentro da chaleira.
Realizou esta tarefa com o mesmo cuidado que um rinoceronte teria ao tentar passar um fio pelo buraco de uma agulha.
...Então se largou sentada na maior e mais larga das poltronas individuais que havia ali.
- Ikaos. - ela chamou. - Acorda seu gato gordo. Vai chamar o Yue. O chá está pronto.
O gato nem se moveu. Estaria realmente morto?
- Ikaaaooos... - Amethista chamou novamente, sem animo. - Anda... Levanta...
Mais uma vez o gato não se moveu.
Ainda sentada na poltrona, Amethista se curvou para frente e passou a encarar o gato com seriedade.
Apertou seus olhos e prestou atenção. Sua iris roxa reluzia por entre as pálpebras com a luz do fogo enquanto ela mordia levemente o canto do lábio inferior, mantendo-se em silêncio e respirando baixinho.
Por alguns instantes o único som além da chuva e do crepitar do fogo era o de um relógio em outro comodo. E por alguns segundos Amethista realmente achou que Ikaos podia ter morrido... Pelo menos até ele levantar e baixar seu rabo em um movimento único.
A garota se pegou em duvida se ficava alegre por ainda haver vida naquele bicho preguiçoso ou se estava decepcionada...
- Pelo menos teria sido alguma agitação... - resmungou novamente consigo enquanto levantava e decidia ir ela mesma até Yue.
Mais uma vez com o movimento dos dedos fez a chaleira flutuar.
- Por favor, siga-me dona chaleira...
E então saiu daquela sala para uma outra ainda maior onde começou a subir uma escaria de madeira.
O resto da Torre, como era chamada aquela casa estranha, não estava tão quente quando a sala da lareira e por um momento ela sentiu frio. Também não estava tão bem iluminada e a pálida luz de fora acabava gerando sombras em móveis e objetos que assumiam um aspecto assustador.
...Mas não se pode dizer que ela estava assustada. Na verdade, talvez até se alegrasse caso visse um monstro ou fantasma, mas eram apenas móveis e velharias.
Ela parou diante de uma porta de madeira.
- Yue, trouxe o chá. - e bateu na porta enquanto a chaleira flutuava perto dela. - E é melhor que você queira chá. Por que se você não quiser...
Ninguém respondeu do lado de dentro do quarto.
- Yue? - ela chamou novamente enquanto batia outra vez. - Você está me ouvindo? Yue...
Um arrepio correu por sua espinha quando mais uma vez ninguém respondeu, mas talvez fosse apenas frio...
Olhou para baixo e viu uma estranha e oscilante luz saindo da fresta sob a porta.
Sua mão imediatamente subiu em direção a maçaneta.
Ela segurou firmemente e pensou duas vezes antes de girar. Mas girou... E a porta começou a se abrir devagar.
A luz de um ensolarado dia começou a escapar e a cegou brevemente ao mesmo tempo em sentia um calor de verão sendo soprado contra seu corpo pelo vento que emanava de dentro do quarto.
Seus olhos então se acostumaram com a luz e a porta que antes dava para o quarto de Yue, que ficava no alto daquela construção, provavelmente o equivalente ao quinto andar de um prédio, agora era a passagem para um bosque campo verdejante e ensolarado.
A chaleira que até então estava flutuando atrás de Amethista foi direto ao chão. Seu queixo também teria ido, mas uma vez preso pelos músculos da bochecha ele se contentou em ficar largado em boca aberta.
A garota ainda virou para o lado afim de observar a janela que havia no final do corredor, mas do lado de fora a mesma chuva vinda do céu cinza ainda caía.
Ela estava prestes a entrar quando alguém a segurou pela mão, entrelaçando seus dedos com os dela e fazendo a garota desviar a atenção.
Amethista se virou e contemplou Yue.
- Acho melhor deixarmos esse quarto fechado por enquanto, Amethista. - e com cuidado ele começou a puxar a porta para fechar.
- Mas... Por que? Esse lugar é lindo!
- Realmente é lindo, mas... - ele fez uma pausa proposital em seu discurso enquanto fechava e abria novamente a porta. Dessa vez não havia nada ali senão o seu velho e gelado quarto.- ...Prefiro não te perder pra ilusões.
Dessa vez Amethista entrou no quarto e começou a olhar ao redor, incrédula.
- Como você fez isso? - ela finalmente perguntou, depois de alguns segundos.
- Você quer mesmo saber?
- Claro que sim!!! - estava eufórica.
- Eu troco a informação por chá...
- Chá...?
"AAAAAAAAAH!!!! O CHÁÁÁÁ!!!!"
terça-feira, 27 de maio de 2014
Iriahin - A Prisão do Príncipe (Parte 2)
O momento de silêncio constrangedor que se seguiu enquanto Iriahin sorria foi suficiente para Anderaken se decidir e agir.
Apesar de mal ter entrado no quarto, assim que que concluiu que o filho realmente estava aprontando algo, correu para fora e trancou a porta.
Iriahin ficou perplexo por um momento e não teve sequer tempo para reagir antes do som da chave sendo girada chegar aos seus ouvidos.
O príncipe correu até a porta e começou a bater com os punhos cerrados.
- Oe, pai! Mas que é isso?! - ele perguntou, gritando e iniciando a conversa através da porta fechada.
- Que caia o mundo se eu não estiver certo, Iriahin! Conte-me já o que está planejando ou não vai sair deste quarto!
- Então se segura aí que vai cair!
- Tem a ver com o seu casamento, não é?
Iriahin se calou imediatamente e por um momento só conseguiu pensar: "Velho maldito! Como é que sempre sabe?".
O plano foi executado sem falhas e no mais completo sigilo. Teria sido apenas azar o rei resolver visita-lo justo naquela noite?
De qualquer forma não adiantava mais nada negar. No momento em que Iriahin se calou, Anderaken soube que estava certo e fez questão de deixar isso claro na sua próxima fala...
- Tens uma bela noiva te esperando e um futuro ainda melhor a vir pela frente, Iriahin.
- Bela noiva?! - o príncipe pareceu realmente surpreso com aquela afirmação. - Tem mais beleza num "borthelon" do que em Schell, pai.
- Mas que exagero, Iriahin! Você não acha que já é hora de aprender a se comportar? Você é filho de Anderaken, Senhor de Taslon. É príncipe da Cidade do Amanhecer e deve pensar e agir como tal!
- Pois que seja! Se é dessa forma que diz, então digo que não me caso.
- Sinto muito, Iriahin! Mas até que cresça você não tem como escolher.
- Hehehe. Ah é?! Então eu aceito o desafio, senhor rei!
Aquelas palavras...
Fisicamente pai e filho não eram muito parecidos. Iriahin havia puxado mais a sua mãe que ao pai.
No entanto, em relação a teimosia, orgulho e espirito de luta os dois estavam páreo a páreo.
O que Iriahin fez foi transformar a coisa toda em um jogo para ambos. Um jogo muito importante que envolveria todo o futuro de Taslon e seus cidadãos, um casamento, nobres, promessas e honras e principalmente... Pai e filho.
- Mas você só pode ter ficado louco. Ainda pretende me desobedecer, Iriahin? - retrucou Anderaken em um tom mais sério.
- Eu nunca planejei casar, pra começo de conversa!
- Pois então aceito teu desafio, moleque! Está preso em teu quarto até o dia de teu casamento. Vai ter uma lição do que é desafiar o próprio sangue.
- Ha! Você é quem vai ver! Você não tem como me manter aqui dentro!
- Não por isso, moleque. Há muitas correntes no calabouço!
- ...Ainda soa melhor do que casamento. - constatou Iriahin, refletindo sobre o assunto.
- Pois saia deste quarto e logo descobrirá! Passar bem, meu filho!
- Boa noite, papai!
Havia um tom cômico e infantil na forma como os dois perdiam a paciência e acabavam discutindo.
Iriahin deu um soco na porta e fez uma careta.
Manteve a mão em punho cerrado de encontro com a madeira enquanto respirava bufando por alguns segundos.
Foram momentos de silêncio e introspecção nervosa que se resultaram em um único pensamento final...
- Aaaaah! MAS O QUE FOI QUE EU FIZ?! - ele falou alto enquanto levava as duas mãos à cabeça.
Sem perceber ele havia caído direitinho no jogo de seu pai e agora estava ali, trancado no próprio quarto sem ter a menor ideia de como faria para chegar ao ponto de encontro onde Aldel provavelmente já aguardava.
Não demorou até ele ouvir dois ou talvez três soldados se aproximarem da porta do quarto pelo lado de fora.
Era óbvio que Anderaken não facilitaria e aqueles soldados montando guarda eram um claro sinal disso.
Aquela altura toda a guarda do castelo e todos os empregados já deveriam estar cientes do castigo do príncipe.
Iriahin andou de um lado para o outro no quarto tentando pensar em algum plano, mas...
- Tudo o que posso fazer é não piorar a situação. - falou consigo mesmo novamente enquanto caía de costas na cama.
Os boatos se espalhariam e logo Aldel saberia do ocorrido.
Talvez então tivessem alguma chance.
- Eu não podia desejar melhor começo pra esta aventura... - e sorriu. - ...Se fosse fácil, não valeria a pena.
Apesar de mal ter entrado no quarto, assim que que concluiu que o filho realmente estava aprontando algo, correu para fora e trancou a porta.
Iriahin ficou perplexo por um momento e não teve sequer tempo para reagir antes do som da chave sendo girada chegar aos seus ouvidos.
O príncipe correu até a porta e começou a bater com os punhos cerrados.
- Oe, pai! Mas que é isso?! - ele perguntou, gritando e iniciando a conversa através da porta fechada.
- Que caia o mundo se eu não estiver certo, Iriahin! Conte-me já o que está planejando ou não vai sair deste quarto!
- Então se segura aí que vai cair!
- Tem a ver com o seu casamento, não é?
Iriahin se calou imediatamente e por um momento só conseguiu pensar: "Velho maldito! Como é que sempre sabe?".
O plano foi executado sem falhas e no mais completo sigilo. Teria sido apenas azar o rei resolver visita-lo justo naquela noite?
De qualquer forma não adiantava mais nada negar. No momento em que Iriahin se calou, Anderaken soube que estava certo e fez questão de deixar isso claro na sua próxima fala...
- Tens uma bela noiva te esperando e um futuro ainda melhor a vir pela frente, Iriahin.
- Bela noiva?! - o príncipe pareceu realmente surpreso com aquela afirmação. - Tem mais beleza num "borthelon" do que em Schell, pai.
- Mas que exagero, Iriahin! Você não acha que já é hora de aprender a se comportar? Você é filho de Anderaken, Senhor de Taslon. É príncipe da Cidade do Amanhecer e deve pensar e agir como tal!
- Pois que seja! Se é dessa forma que diz, então digo que não me caso.
- Sinto muito, Iriahin! Mas até que cresça você não tem como escolher.
- Hehehe. Ah é?! Então eu aceito o desafio, senhor rei!
Aquelas palavras...
Fisicamente pai e filho não eram muito parecidos. Iriahin havia puxado mais a sua mãe que ao pai.
No entanto, em relação a teimosia, orgulho e espirito de luta os dois estavam páreo a páreo.
O que Iriahin fez foi transformar a coisa toda em um jogo para ambos. Um jogo muito importante que envolveria todo o futuro de Taslon e seus cidadãos, um casamento, nobres, promessas e honras e principalmente... Pai e filho.
- Mas você só pode ter ficado louco. Ainda pretende me desobedecer, Iriahin? - retrucou Anderaken em um tom mais sério.
- Eu nunca planejei casar, pra começo de conversa!
- Pois então aceito teu desafio, moleque! Está preso em teu quarto até o dia de teu casamento. Vai ter uma lição do que é desafiar o próprio sangue.
- Ha! Você é quem vai ver! Você não tem como me manter aqui dentro!
- Não por isso, moleque. Há muitas correntes no calabouço!
- ...Ainda soa melhor do que casamento. - constatou Iriahin, refletindo sobre o assunto.
- Pois saia deste quarto e logo descobrirá! Passar bem, meu filho!
- Boa noite, papai!
Havia um tom cômico e infantil na forma como os dois perdiam a paciência e acabavam discutindo.
Iriahin deu um soco na porta e fez uma careta.
Manteve a mão em punho cerrado de encontro com a madeira enquanto respirava bufando por alguns segundos.
Foram momentos de silêncio e introspecção nervosa que se resultaram em um único pensamento final...
- Aaaaah! MAS O QUE FOI QUE EU FIZ?! - ele falou alto enquanto levava as duas mãos à cabeça.
Sem perceber ele havia caído direitinho no jogo de seu pai e agora estava ali, trancado no próprio quarto sem ter a menor ideia de como faria para chegar ao ponto de encontro onde Aldel provavelmente já aguardava.
Não demorou até ele ouvir dois ou talvez três soldados se aproximarem da porta do quarto pelo lado de fora.
Era óbvio que Anderaken não facilitaria e aqueles soldados montando guarda eram um claro sinal disso.
Aquela altura toda a guarda do castelo e todos os empregados já deveriam estar cientes do castigo do príncipe.
Iriahin andou de um lado para o outro no quarto tentando pensar em algum plano, mas...
- Tudo o que posso fazer é não piorar a situação. - falou consigo mesmo novamente enquanto caía de costas na cama.
Os boatos se espalhariam e logo Aldel saberia do ocorrido.
Talvez então tivessem alguma chance.
- Eu não podia desejar melhor começo pra esta aventura... - e sorriu. - ...Se fosse fácil, não valeria a pena.
quinta-feira, 22 de maio de 2014
Estrelas
Por favor, não me ignore. Não dessa vez.
Ouça a minha voz... Por favor... Ouça...
Você sabe que eu estou aqui.
...Você tem que saber...
Feche seus olhos... Sinta...
Eu estou aqui!
Eu sei que você pode me ouvir...
Sei que está cansado. Sei que se sente perdido...
Apenas por um momento preste atenção em mim.
...Mesmo que eu não tenha a saída.
Ouça a música... Ouça com atenção.
Deixe a música te guiar...
Você sabe que pode. Já fez isso antes.
Já fez isso muitas e muitas vezes.
Não é tão difícil quanto parece.
Você consegue...
Apenas ouça... E então...
...Conte-me o que vê...
Eu só vejo estrelas...
quarta-feira, 21 de maio de 2014
A Prisão do Príncipe (Parte 1 )
- Veja isto, Aldel. - disse Iriahin sobre uma enorme escada de onde arremessou um pesado livro para o amigo. Aldel exitou um momento sem saber se agarrava o livro ou desviava dele. Decidiu agarrar. - Página trezentos e oitenta e seis, "A Flor de Lanta".
O naithlyn carregou o livro para uma mesa onde muitos outros já estavam abertos. Folheou as páginas e encontrou a que Iria havia falado.
- A Flor de Lanta é extremamente rara. - começou a narrar em voz alta o texto enquanto lia. Iriahin pulou do alto da escada direto para o chão e se aproximou do amigo. - Encontra-se geralmente em regiões pantanosas de difícil acesso. Seu perfume é tão desagradável quanto os próprios pântanos e a coloração de suas pétalas estão relacionadas com a intensidade do cheiro...".
Aldel parou de falar e se virou lentamente para Iriahin.
- Eu não acredito nisso. - disse o naith.
- Vamos para o norte, Aldel.
- Pântanos nojentos... E perigosos... Não que eu ligue de correr riscos, mas... Por uma flor fedorenta?
- Será divertido!
- Não duvido, mas confesso que odeio pântanos. Além disso, vamos precisar de muita comida.
- Nem tanto. - Iriahin respondeu sentando numa cadeira e colocando os pés sobre a mesa.
- Nem tanto...? - Aldel estranhou, mas logo entendeu. - Você está pensando em cruzar a região sem dono, não é?
- Se é sem dono... - O garoto deu de ombros e quase caiu com cadeira e tudo quando a inclinuou para trás. - Não será por muito tempo.
Aldel estava sorrindo. Sentia o friozinho barriga de ansiedade, mas ainda assim ponderava os riscos de tudo que o amigo estava lhe dizendo.
Pode-se dizer que nesse sentido Iriahin sempre foi mais naithlyn que Aldel.
Uma das características do naithlyns é a despreocupação e a simplicidade de pensamento. No entanto, é provável que em seu curto período de vida Aldel tenha se metido em três ou quatro vezes mais confusões na companhia de Iriahin do que um naithlyn comum conseguiria durante toda sua longa vida. Ter se tornado um gato cuidadoso não é apenas natural, mas uma evolução para garantir sua auto-preservação.
Agora ele coçava com o dedo indicador direito a região da testa próxima a sua gema e Iriahin sabia que isso significava que Aldel provavelmente não estava conseguindo pensar em mais nada problemático.
- Uma aventura geralmente compensa os perigos com riquezas, não é? O que vamos ganhar com isso além da flor fedorenta? Que raios de aventura será essa a nossa?
- Nossa aventura...?
Iriahin se levantou de uma vez só e a cadeira de madeira foi direto de encontro ao chão. Ele inspirou fundo e começou seu teatro.
- É a aventura de um apaixonado! Um louco desesperado! - pulou sobre a mesa e cerrou a mão em punho. - A aventura de um herói disposto a arriscar a própria vida como prova de amor!
Iriahin foi erguendo a mão cerrada para cima como se elevasse uma espada aos céus. Estava tão inserido em seu personagem que seus olhos brilhavam reluzindo as luzes das velas da biblioteca.
Aldel se limitava a assistir. Não era a primeira vez que presenciava um surto teatral de Iria.
Na verdade, aquilo era mais frequente do que pode-se imaginar. Mas para trazer o amigo de volta a realidade ele arremessou um livro que quase o atingiu na cabeça.
- Caro senhor louco apaixonado. Pelo que eu bem te conheço seus maiores tesouros são seus problemas. Mas e a minha parte?
- ...Que tal metade dos meus tesouros e minha eterna gratidão?
- Em outras palavras, nada além da boa amizade.
- Isso... E metade do que encontrarmos de valor.
- Gosto da parte da amizade e da metade do que encontrarmos de valor. Como sou muito gentil deixo você ficar com seus tesouros problemáticos.
- Quanta gentileza, senhor Aldel! Muito obrigado!
- Então...
Iriahin encarnou novamente seu galante personagem e ainda em cima da mesa voltou a erguer a mão.
- Que se inicie esta nossa nobre aventura em busca do perfume que o amor merece!
Os dois riram muito aquele dia.
Pegaram um mapa e começaram a planejar a rota de viagem. Paravam aqui e ali para comentar sobre as peculiaridades de certas regiões e também para imaginar a cara que Schell faria ao receber tal sinal de afeto.
Decidiram tudo. Dia e horário da partida, onde seria o ponto de encontro, o trajeto que fariam e a quantidade de suprimentos necessário.
Nos próximo dias dividiram as tarefas e as executaram metodicamente tomando precauções para não serem descobertos.
Parecia estar tudo certo, a unica coisa com a qual não contavam era...
- Iriahin. - disse Anderaken, pai de Iriahin e rei de Taslon, do lado de fora do quarto enquanto batia na porta.
Era um homem alto e de porte imponente. Tinha longos cabelos brancos e lisos, olhos azuis escuros como o oceano e pele clara. Sua expressão sempre calma e séria passava a impressão de ser um bom homem e um bom rei.
- Hey, pai! Tudo bem? - disse Iriahin, tentando disfarçar e empurrando sua mochila para debaixo da cama com o pé.
Não era incomum Anderaken visitar seu filho em seu quarto, mas notavelmente Iriahin não esperava por aquilo justo naquela ocasião.
Era como se o rei tivesse farejado no ar que o filho estava prestes a aprontar alguma coisa.
E não era pra menos...
Da mesma forma que Aldel havia aprendido a preservar o que ainda restava de suas vidas de gato, Anderaken também havia desenvolvido habilidades inconscientes de notar alterações no comportamento do filho e ele sabia que para ter certeza só precisava fazer uma pergunta.
- Iriahin... - disse ele em tom sério e desconfiado, propositadamente prolongando a ultima silaba do nome do filho. - O que é que você está aprontando agora?
- Aprontando...? Eu...?
E estava feito...
Os olhos de Anderaken se apertaram e ele imediatamente soltou uma rajada de ar pelo nariz. Sua testa se franziu em preocupação e sua boca se torceu numa notável expressão de desconforto.
Por mais que o rei não soubesse do que se tratava, ele tinha certeza que o filho estava aprontando.
Frente aquilo Iriahin fez a unica coisa que conseguia se lembrar de fazer...
- Hehe... - ...Sorrir descaradamente como cínico culpado.
O naithlyn carregou o livro para uma mesa onde muitos outros já estavam abertos. Folheou as páginas e encontrou a que Iria havia falado.
- A Flor de Lanta é extremamente rara. - começou a narrar em voz alta o texto enquanto lia. Iriahin pulou do alto da escada direto para o chão e se aproximou do amigo. - Encontra-se geralmente em regiões pantanosas de difícil acesso. Seu perfume é tão desagradável quanto os próprios pântanos e a coloração de suas pétalas estão relacionadas com a intensidade do cheiro...".
Aldel parou de falar e se virou lentamente para Iriahin.
- Eu não acredito nisso. - disse o naith.
- Vamos para o norte, Aldel.
- Pântanos nojentos... E perigosos... Não que eu ligue de correr riscos, mas... Por uma flor fedorenta?
- Será divertido!
- Não duvido, mas confesso que odeio pântanos. Além disso, vamos precisar de muita comida.
- Nem tanto. - Iriahin respondeu sentando numa cadeira e colocando os pés sobre a mesa.
- Nem tanto...? - Aldel estranhou, mas logo entendeu. - Você está pensando em cruzar a região sem dono, não é?
- Se é sem dono... - O garoto deu de ombros e quase caiu com cadeira e tudo quando a inclinuou para trás. - Não será por muito tempo.
Aldel estava sorrindo. Sentia o friozinho barriga de ansiedade, mas ainda assim ponderava os riscos de tudo que o amigo estava lhe dizendo.
Pode-se dizer que nesse sentido Iriahin sempre foi mais naithlyn que Aldel.
Uma das características do naithlyns é a despreocupação e a simplicidade de pensamento. No entanto, é provável que em seu curto período de vida Aldel tenha se metido em três ou quatro vezes mais confusões na companhia de Iriahin do que um naithlyn comum conseguiria durante toda sua longa vida. Ter se tornado um gato cuidadoso não é apenas natural, mas uma evolução para garantir sua auto-preservação.
Agora ele coçava com o dedo indicador direito a região da testa próxima a sua gema e Iriahin sabia que isso significava que Aldel provavelmente não estava conseguindo pensar em mais nada problemático.
- Uma aventura geralmente compensa os perigos com riquezas, não é? O que vamos ganhar com isso além da flor fedorenta? Que raios de aventura será essa a nossa?
- Nossa aventura...?
Iriahin se levantou de uma vez só e a cadeira de madeira foi direto de encontro ao chão. Ele inspirou fundo e começou seu teatro.
- É a aventura de um apaixonado! Um louco desesperado! - pulou sobre a mesa e cerrou a mão em punho. - A aventura de um herói disposto a arriscar a própria vida como prova de amor!
Iriahin foi erguendo a mão cerrada para cima como se elevasse uma espada aos céus. Estava tão inserido em seu personagem que seus olhos brilhavam reluzindo as luzes das velas da biblioteca.
Aldel se limitava a assistir. Não era a primeira vez que presenciava um surto teatral de Iria.
Na verdade, aquilo era mais frequente do que pode-se imaginar. Mas para trazer o amigo de volta a realidade ele arremessou um livro que quase o atingiu na cabeça.
- Caro senhor louco apaixonado. Pelo que eu bem te conheço seus maiores tesouros são seus problemas. Mas e a minha parte?
- ...Que tal metade dos meus tesouros e minha eterna gratidão?
- Em outras palavras, nada além da boa amizade.
- Isso... E metade do que encontrarmos de valor.
- Gosto da parte da amizade e da metade do que encontrarmos de valor. Como sou muito gentil deixo você ficar com seus tesouros problemáticos.
- Quanta gentileza, senhor Aldel! Muito obrigado!
- Então...
Iriahin encarnou novamente seu galante personagem e ainda em cima da mesa voltou a erguer a mão.
- Que se inicie esta nossa nobre aventura em busca do perfume que o amor merece!
Os dois riram muito aquele dia.
Pegaram um mapa e começaram a planejar a rota de viagem. Paravam aqui e ali para comentar sobre as peculiaridades de certas regiões e também para imaginar a cara que Schell faria ao receber tal sinal de afeto.
Decidiram tudo. Dia e horário da partida, onde seria o ponto de encontro, o trajeto que fariam e a quantidade de suprimentos necessário.
Nos próximo dias dividiram as tarefas e as executaram metodicamente tomando precauções para não serem descobertos.
Parecia estar tudo certo, a unica coisa com a qual não contavam era...
- Iriahin. - disse Anderaken, pai de Iriahin e rei de Taslon, do lado de fora do quarto enquanto batia na porta.
Era um homem alto e de porte imponente. Tinha longos cabelos brancos e lisos, olhos azuis escuros como o oceano e pele clara. Sua expressão sempre calma e séria passava a impressão de ser um bom homem e um bom rei.
- Hey, pai! Tudo bem? - disse Iriahin, tentando disfarçar e empurrando sua mochila para debaixo da cama com o pé.
Não era incomum Anderaken visitar seu filho em seu quarto, mas notavelmente Iriahin não esperava por aquilo justo naquela ocasião.
Era como se o rei tivesse farejado no ar que o filho estava prestes a aprontar alguma coisa.
E não era pra menos...
Da mesma forma que Aldel havia aprendido a preservar o que ainda restava de suas vidas de gato, Anderaken também havia desenvolvido habilidades inconscientes de notar alterações no comportamento do filho e ele sabia que para ter certeza só precisava fazer uma pergunta.
- Iriahin... - disse ele em tom sério e desconfiado, propositadamente prolongando a ultima silaba do nome do filho. - O que é que você está aprontando agora?
- Aprontando...? Eu...?
E estava feito...
Os olhos de Anderaken se apertaram e ele imediatamente soltou uma rajada de ar pelo nariz. Sua testa se franziu em preocupação e sua boca se torceu numa notável expressão de desconforto.
Por mais que o rei não soubesse do que se tratava, ele tinha certeza que o filho estava aprontando.
Frente aquilo Iriahin fez a unica coisa que conseguia se lembrar de fazer...
- Hehe... - ...Sorrir descaradamente como cínico culpado.
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