- É melhor se afastar um pouco, Amethista.
Apesar da voz de Yue permanecer calma como sempre, a garota pode perceber a tensão no ar.
O garoto e a garota na frente deles não pareciam ter nada de comum. Pelo menos quando comparados a todos os humanos que ela havia visto até então.
Estavam vestidos ambos de preto. O garoto, um pouco mais alto, tinha os olhos num tom verde tão vivo que parecia emitir luz própria, mantinha a cabeça baixa com a franja de cabelos prateados caindo a frente do rosto, mas sem impedir seu olhar sério de atingir Yue. Carregava na mão direita uma espada japonesa cuja lamina era tão longa quanto seu próprio corpo de não mais que quatorze anos.
Já a garota, igualmente séria, tinha os olhos alaranjados e o cabelo loiro, liso e comprido até sua cintura. Usava um vestido franjado que combinava com seus aparentemente dez anos. Estava de costas para seu parceiro e não se preocupava em focar Yue. Deixava pender das mãos uma foice presa por uma corrente e mesmo assim ainda tinha um ar fofo vinculado a sua forma infantil.
Amethista sentiu que era uma boa ideia obedecer e começou a se afastar alguns passos para trás sem desviar os olhos das duas figuras que barravam o caminho.
- Quem são eles? - ela perguntou enquanto tomava distância.
- Antigos companheiros... Talvez. - ele respondeu ao reconhecer o simbolo que os dois tinham tatuado nas mãos que carregavam as armas. - Ou algo do tipo...
- "Companheiros"? - repetiu o garoto em tom irônico. - Não me faça rir, Yue. Você sempre falou muita merda.
- Jahey... Você está falando palavrões de novo. - falou a pequena com frieza na voz enquanto olhava um pássaro pousado num galho de árvore.
- Desculpe Kaily. Esse cara me tira do sério.
Yue coçou a cabeça apenas com o dedo indicador da mão direita enquanto observava os dois com curiosidade.
- Me render, é? Bem... Isso vai ser meio problemático.
- Problemático? - repetiu Jahey.
- Acontece que no momento estou a caminho de um pic nic. Será que posso me render depois disso?
- Como é?! Seu filho da puta de merda! Tá de onda com a minha cara?!
- Jahey!!!
- Sabe como é... Estamos planejando isso já faz algum tempo e seria um desperdício. Temos muita comida. Querem nos acompanhar?
O garoto Jahey cerrou os dentes e apertou a espada entre os dedos. Seu rosto ficou vermelho quando o sangue lhe subiu e parecia fazer um grande esforço.
O que veio a seguir foi uma sucessão de xingamentos tão diversos e tão sujos que fariam um padre infartar. Logo em seguida um soco de Kaily atingiu o garoto no peito. O movimento não teve nada de demais, de fato poderia ser considerado até mesmo lento, mas foi o suficiente para arremessar o garoto metros para trás e fazê-lo atravessar uma árvore que estava no caminho.
A árvore caiu e seu tronco quase atingiu Yue, errando apenas por pouco mais de 1 centímetro e fazendo Amethista soltar um gritinho de susto. Ainda assim ele nem sequer se moveu.
- Eu avisei, Jahey.
- Desculpa, Kaily! - gritou o garoto de onde tinha ido parar.
- Vamos acabar com isso... - falou a garotinha, finalmente voltando sua atenção para Yue. - Peço desculpas, mas não podemos aceitar seu convite, senhor Yue. E uma vez que o senhor não deseja se render neste momento seremos obrigados a lutar.
- Não o chame de senhor!!! Droga, Kaily! Não precisa ser tão educada! - o garoto gritou novamente. Já estava de pé e parecia muito bem para quem havia acabado de levar um golpe tão forte.
- Bem... Entendi. Se esse é o caso, então... - replicou Yue.
A garota ergueu sua arma e entrou em posição de luta.
- Espere, Kaily! Eu acabo com esse viadinho de mer... Digo, com Yue Jaded. Eu acabo com ele.
Ela olhou para Jahey, deu de ombros e começou a baixar a arma.
- Espere! - foi a vez de Yue falar. - Posso pedir pra que venham os dois de uma só vez?
- Os dois?! - gritou Amethista de longe. - Yue! Não!
Como se sempre estivesse estado lá, um gato branco e um pouco gordo pulou do alto de uma árvore diretamente para perto dos pés de Amethista.
- Não se preocupe. - o gato falou. - Vai ser mais rápido desse jeito.
- Mas Ikaos...!
- Acredite em mim... Eu sei do que estou fa... lando. -a ultima parte saiu com o bocejo que foi seguido de uma espreguiçada antes de se deitar.
Do outro lado Kaily havia inclinado a cabeça para o lado e olhava para Yue com um certo ar de curiosidade.
- Idiota do caral... Digo... Você só pode ser muito burro, Yue Jaded. Eu sou mais que o necessário para acabar com você.
- Mas o gato tem razão, não acha? Se forem os dois será mais rápido... Que tal? - Yue olhou na direção de Kaily. - Por favor?
Imediatamente após ouvir as palavras de Yue, Jahey levou a mão vazia de encontro a cabeça e suspirou.
- Bem... Já que você pediu por favor... - respondeu Kaily enquanto reassumia sua posição de luta.
Yue também se preparou. Balançou a cabeça para um lado e para o outro estalando o pescoço, girou os ombros para trás e então parou exatamente como estava antes de fazer tudo isso.
- Podem vir quando quiserem. Estou pronto.
...E Jahey foi o primeiro.
Seu ataque veio na forma de um corte transversal tão rápido que Amethista só conseguiu entender o que havia acontecido quando viu Yue segurando a lamina entre o dedo indicador e polegar da mão direita como se fosse a coisa mais fácil do mundo.
Seu próximo movimento foi desviar a cabeça para o lado para se esquivar da foice de Kaily que fora lançada de algum lugar alto.
- Garotinha... - Yue falou. - Você ficaria muito triste se eu matasse seu amigo de boca suja?
Foi então que Amethista percebeu que Yue não apenas havia se defendido do ataque de Jahey usando apenas dois dedos como também tinha uma pequena esfera de energia concentrada na mão esquerda apontada para o coração do garoto.
- Terei de pedir que por favor não faça isso, senhor Yue. - respondeu a garota, rapidamente aparecendo atrás de Yue e desferindo um ataque que o obrigou a desistir de sua investida e saltar para o lado para se proteger.
- Já que você pediu por favor... Mas não vou deixá-lo escapar sem um belo castigo para aprender a respeitar seus "senpais".
E assim que disse isso a lamina da espada se partiu exatamente no ponto onde ele estava segurando.
- Filho da puta! - gritou Jahey fazendo com que Kaily olhasse feio para ele. - Minha espada!
- Ops... Desculpa aew. Talvez de pra colar com cuspe, garoto.
A sucessão de ataques que vieram depois disso foram muito mais rápidos, mais violentos e fizeram com que Yue Jaded se movesse mais do que esperava a principio.
Agora, apesar de ofegante, havia inutilizado ambas as armas e aguardava o próximo ataque.
Jahey também parecia estar bem cansado, no entanto Kaily ainda não tinha sequer começado a suar.
Amethista estava surpresa e se pegou até mesmo um tanto empolgada com o desenrolar da luta. Ikaos por outro lado estava esparramado no chão e dormia profundamente.
- Sabe qual é o grande problema do lugar de onde vocês vieram? - Yue começou a falar. - Eles não fazem a menor ideia do que estão fazendo.
Os ataques continuaram, mais fortes e mais intensos apesar da falta de armas. Kaily parecia especialista em condensar a energia em seu próprio corpo e isto tornava cada um de seus golpes talvez ainda mais pesado do que uma bola de demolição. Jahey por sua vez, sem a espada, havia ficado mais rápido e manipulava a energia ao redor para projetar ataques explosivos.
- Tudo o que eu queria era fazer um pic nic. Como é que eu vim parar nessa situação? Digo... Não é exatamente uma coisa que acontece todo dia, não é? Ou alguma coisa que planejamos... "Aaaah! Que ótimo dia para lutar com alguns pirralhos sem noção! Quem sabe não encontro alguns pelo caminho?!"
- Cala essa boca!!! - gritou Jahey.
- Essas crianças de hoje em dia não tem mais qualquer noção de respeito... - Yue continuava a falar enquanto se esquivava com facilidade. Até então todos os seus ataques haviam se concentrado em destruir as armas dos adversários. - Digo... A garotinha pelo menos é educada.
- Muito obrigada. - ela replicou enquanto chutava.... O ar. Yue já não estava mais lá para ser atingido.
- Espero que não fiquem muito chateados se eu os matar aqui.
- Não seria agradável, mas posso entender, senhor Yue.
- Pare de chamá-lo de senhor, droga! De que lado você está Kaily?!
E foi então que Yue mais uma vez se esquivou e o ataque que a garotinha havia destinado para ele acabou por atingir por engano seu próprio companheiro.
Jaded aproveitou o momento de surpresa para atingir Kaily com um soco na barriga. O golpe foi forte o suficiente para erguê-la do chão e em seguida um chute giratório a arremessou para cima e ao encontro de Jahey. Ambos se chocaram contra a mesma árvore. Primeiro um e depois o outro caindo amontoados no chão.
O próximo movimento de Yue foi concentrar uma grande quantidade de energia a frente de sua mão e arremessar ao lado dos dois, mas ainda próximo o suficiente para a explosão fazê-los voar.
Eles não tiveram tempo de levantar. Yue fez este trabalho por eles ao agarrá-los por seus pescoços e os erguer acima de sua cabeça, um em cada mão.
Por um instante a expressão em seu rosto se tornou tão cruel que mesmo Amethista teve medo. Ikaos também já se encontrava acordado e observava a cena com curiosidade. Mas Yue simplesmente largou os dois no chão...
- Senhorita Kaily, certo? - Yue se abaixou e a encarou enquanto ela tossia e acenava um sim com a cabeça. - Imagino que não queira morrer... Então... Me daria licença para que eu vá para meu pic nic agora? Por favor?
A garota o encarou seriamente e pareceu ponderar por um instante, mas... O que poderia realmente fazer?
Então, sem ouvir resposta, Yue piscou um olho e se levantou. Acenou para Amethista e Ikaos e os três voltaram a seguir caminho.
- Você é mais forte do que eu esperava. - Amethista começou a dizer logo que se aproximou. - Quem eram eles afinal?
- Ex-colegas... Ou coisa do tipo.
- De trabalho?
- Acho que podemos dizer que sim...
Eles se afastaram conversando enquanto Kaily e Jahey apenas observavam, ainda no chão.
Foi o garoto que quebrou o silêncio entre eles.
- ...Mas que cuzão. - foi o que disse antes de um forte soco de Kaily o atingir e o arremessar para longe. - Desculpa!!!
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sábado, 7 de junho de 2014
terça-feira, 3 de junho de 2014
Yue e Amethista - Passado
Post mood: Cowboy Bebop - Gotta Knock a Little Hard
- E que diferença faz se ela estiver certa ou não?
- Sua vida poderia ter sido diferente. Mesmo agora ela ainda pode se tornar completamente diferente.
- Todos os dias são diferentes, Amethista. E isso não tem relação com o fato de alguém estar certo a meu respeito ou não.
- Você entendeu o que eu quis dizer. - ela replicou enquanto dava um leve chute no ombro do parceiro.
É claro que ele havia entendido.
O simples fato de estarem ali depois de tanto tempo significava isto.
Amethista pulou de onde estava e os dois começaram a caminhar em silêncio. O vento soprava frio contra seus corpos e a garota se encolheu em seu casaco. Yue no entanto parecia não sentir. Estava imerso em seus pensamentos.
Contornaram o lago e começaram a subir uma certa rua. Rapidamente ele percebeu como as coisas estava diferentes apesar de alguma coisa dentro dele jurar que aquele lugar nunca iria mudar. Talvez fosse o que esperasse num desejo inconsciente... Mas o que é que realmente nunca muda?
Algumas quadras para cima e era hora de virar a direita.
As pessoas daquele lugar pareciam tão desconfiadas quanto de costume e olhavam curiosos para Yue e Amethista em seus trajes estranhos que deixava bem claro que não eram da cidade.
- Nossa... As coisas realmente mudaram por aqui, não é mesmo? - Amethista comentou enquanto olhava ao redor. - Para onde vamos agora?
- Você sabe para onde vamos.
- Só queria confirmar. - e sorriu. A garota estava sendo especialmente provocativa naquele dia. - Você vai parar para um chá ou coisa do tipo?
Yue não se deu o trabalho de responder, apenas continuou procurando o lugar certo com o olhar. Será que ainda estaria lá?
- Você acha que errou, Yue? - Amethista perguntou de repente e sem qualquer cerimonia.
Ele parou de andar.
Ainda não haviam chegado ao destino, mas ele não esboçou mais qualquer movimento depois de ouvir a pergunta de Amethista.
Se ele havia errado? Bem...
- Não precisa responder se não quiser, mas pelo menos uma vez eu gostaria de saber como você realmente se sente a respeito de algo.
Não era apenas por curiosidade que a garota estava perguntando e Yue pode sentir a preocupação que ela carregava na voz..
E como é que ela não estaria preocupada? Não era tão simples assim afinal, não é mesmo?
Ele não estava sozinho.
Ali, logo atrás dele, estava Amethista... A realizadora de desejos que inicialmente fora criada com um único propósito.
...Um propósito nunca atingido e agora talvez perdido para sempre em meio as ruínas de um passado complicado..
E então... Se ele achava que havia errado...?
Yue se virou para Amethista e a encarou com seu olhar sério. Ele tinha um meio sorriso estampado no canto dos lábios que dificultava saber o que se passava em sua cabeça e coração.
- Errar é perigoso, Amethista. - ele falou. enquanto erguia o punho fechado e o apontava pra garota. - E talvez eu seja um homem perigoso por errar tanto e pro tudo o que errei até hoje. Mas talvez o que você realmente queira saber é se eu me arrependo...
- E você se arrepende?
Ele baixou a mão e o braço e olhou para o céu. Algumas nuvens brancas passavam devagar por aquela imensidão azul que o lembrava de uma certa baixinha. Yue não conseguiu evitar sorrir diante da recordação e seus olhos brilharam com a claridade do dia.
Amethista o observava com atenção. Ele respondeu de olhos fechados e sentindo o vento gelado soprar contra seu rosto.
- Eu sou metido... Sou arrogante... Sou presunçoso... E muito egoísta. Arrependimento não é uma coisa que combina comigo, não acha? - e então se virou para encarar a garota diretamente nos olhos.
Ali estava.
Aquela expressão de desafio que há muito tempo Amethista não via.
A expressão que Yue tinha estampada no rosto em cada uma das ocasiões que subjugou um inimigo mais forte ou estava prestes a fazer algo terrivelmente insano ou idiota.
- Não... Realmente não combina em nada com você.
Ela se aproximou e deu um soco leve contra o peito de Yue.
Naquela único momento, com palavras tão simples, era como se um peso tivesse sido retirado de seus corações.
- Qual é o seu desejo, senhor Yue Jaded?
- Vamos embora daqui. Cansei desse povo olhando pra gente como se fossemos alienígenas.
- Que? E a visita para o chá?
- Eu passo! Se quiser você sabe onde encontrar a Sayaka e o Karasu.
- Você realmente não entende uma piada, não é mesmo?
sexta-feira, 30 de maio de 2014
Yue e Amethista: Cena na Torre
Era uma destas tardes de outono.
Do lado de fora a chuva caía fria e em gotas finas que escorriam pela janela de vidro. O céu estava nublado e nem sequer havia muito vento. Apenas aquele gotejar monótono e contínuo que facilmente nos coloca pra dormir.
Do lado de dentro o fogo ardia na lareira onde uma grande chaleira havia sido pendurada e começava a fumegar.
Havia ali também, no centro da sala sobre o piso de pedra um grande tapete felpudo, de fios altos e marrons onde um gato gordo e de pelo branco dormia confortavelmente. Estava esparramado daquele jeito que somente os gatos sabem fazer.
As poltronas pareciam meio velhas, mas ainda confortáveis. Nas paredes algumas prateleiras repletas de livros e objetos estranhos que não era fácil distinguir o que realmente era decoração ali.
Todo aquele cenário parecia dançar calmamente sob a iluminação do fogo, o que deixava Amethista ainda mais entediada.
A garota sentada numa cadeira de madeira e debruçada sobre os braços apoiados no batente da janela.
As vezes olhava para fora.... As vezes para seu reflexo...
As vezes olhava para uma gota qualquer que escorria no vidro e então de repente não estava olhando pra nada.
Ela já estava piscando mais do que o normal, passando mais tempo com as pálpebras fechadas que abertas quando a chaleira começou a apitar.
- Quanta emoção... - ela resmungou consigo mesma. - A água do chá está pronta. Uauu... Acho que vou infartar de tanta empolgação.
Voltou sua atenção para a lareira e movendo suas mãos no ar fez a chaleira flutuar de onde estava diretamente para a mesinha que ficava próxima a uma das poltronas.
O gato ao ouvir o som abanou o rabo uma unica vez. Talvez apenas para dar mostras de que ainda estava vivo.
Amethista se levantou e decidiu terminar o trabalho com as próprias mãos.
Pegou um dos objetos estranhos que decoravam o lugar, encheu de ervas e mergulhou diretamente dentro da chaleira.
Realizou esta tarefa com o mesmo cuidado que um rinoceronte teria ao tentar passar um fio pelo buraco de uma agulha.
...Então se largou sentada na maior e mais larga das poltronas individuais que havia ali.
- Ikaos. - ela chamou. - Acorda seu gato gordo. Vai chamar o Yue. O chá está pronto.
O gato nem se moveu. Estaria realmente morto?
- Ikaaaooos... - Amethista chamou novamente, sem animo. - Anda... Levanta...
Mais uma vez o gato não se moveu.
Ainda sentada na poltrona, Amethista se curvou para frente e passou a encarar o gato com seriedade.
Apertou seus olhos e prestou atenção. Sua iris roxa reluzia por entre as pálpebras com a luz do fogo enquanto ela mordia levemente o canto do lábio inferior, mantendo-se em silêncio e respirando baixinho.
Por alguns instantes o único som além da chuva e do crepitar do fogo era o de um relógio em outro comodo. E por alguns segundos Amethista realmente achou que Ikaos podia ter morrido... Pelo menos até ele levantar e baixar seu rabo em um movimento único.
A garota se pegou em duvida se ficava alegre por ainda haver vida naquele bicho preguiçoso ou se estava decepcionada...
- Pelo menos teria sido alguma agitação... - resmungou novamente consigo enquanto levantava e decidia ir ela mesma até Yue.
Mais uma vez com o movimento dos dedos fez a chaleira flutuar.
- Por favor, siga-me dona chaleira...
E então saiu daquela sala para uma outra ainda maior onde começou a subir uma escaria de madeira.
O resto da Torre, como era chamada aquela casa estranha, não estava tão quente quando a sala da lareira e por um momento ela sentiu frio. Também não estava tão bem iluminada e a pálida luz de fora acabava gerando sombras em móveis e objetos que assumiam um aspecto assustador.
...Mas não se pode dizer que ela estava assustada. Na verdade, talvez até se alegrasse caso visse um monstro ou fantasma, mas eram apenas móveis e velharias.
Ela parou diante de uma porta de madeira.
- Yue, trouxe o chá. - e bateu na porta enquanto a chaleira flutuava perto dela. - E é melhor que você queira chá. Por que se você não quiser...
Ninguém respondeu do lado de dentro do quarto.
- Yue? - ela chamou novamente enquanto batia outra vez. - Você está me ouvindo? Yue...
Um arrepio correu por sua espinha quando mais uma vez ninguém respondeu, mas talvez fosse apenas frio...
Olhou para baixo e viu uma estranha e oscilante luz saindo da fresta sob a porta.
Sua mão imediatamente subiu em direção a maçaneta.
Ela segurou firmemente e pensou duas vezes antes de girar. Mas girou... E a porta começou a se abrir devagar.
A luz de um ensolarado dia começou a escapar e a cegou brevemente ao mesmo tempo em sentia um calor de verão sendo soprado contra seu corpo pelo vento que emanava de dentro do quarto.
Seus olhos então se acostumaram com a luz e a porta que antes dava para o quarto de Yue, que ficava no alto daquela construção, provavelmente o equivalente ao quinto andar de um prédio, agora era a passagem para um bosque campo verdejante e ensolarado.
A chaleira que até então estava flutuando atrás de Amethista foi direto ao chão. Seu queixo também teria ido, mas uma vez preso pelos músculos da bochecha ele se contentou em ficar largado em boca aberta.
A garota ainda virou para o lado afim de observar a janela que havia no final do corredor, mas do lado de fora a mesma chuva vinda do céu cinza ainda caía.
Ela estava prestes a entrar quando alguém a segurou pela mão, entrelaçando seus dedos com os dela e fazendo a garota desviar a atenção.
Amethista se virou e contemplou Yue.
- Acho melhor deixarmos esse quarto fechado por enquanto, Amethista. - e com cuidado ele começou a puxar a porta para fechar.
- Mas... Por que? Esse lugar é lindo!
- Realmente é lindo, mas... - ele fez uma pausa proposital em seu discurso enquanto fechava e abria novamente a porta. Dessa vez não havia nada ali senão o seu velho e gelado quarto.- ...Prefiro não te perder pra ilusões.
Dessa vez Amethista entrou no quarto e começou a olhar ao redor, incrédula.
- Como você fez isso? - ela finalmente perguntou, depois de alguns segundos.
- Você quer mesmo saber?
- Claro que sim!!! - estava eufórica.
- Eu troco a informação por chá...
- Chá...?
"AAAAAAAAAH!!!! O CHÁÁÁÁ!!!!"
Do lado de fora a chuva caía fria e em gotas finas que escorriam pela janela de vidro. O céu estava nublado e nem sequer havia muito vento. Apenas aquele gotejar monótono e contínuo que facilmente nos coloca pra dormir.
Do lado de dentro o fogo ardia na lareira onde uma grande chaleira havia sido pendurada e começava a fumegar.
Havia ali também, no centro da sala sobre o piso de pedra um grande tapete felpudo, de fios altos e marrons onde um gato gordo e de pelo branco dormia confortavelmente. Estava esparramado daquele jeito que somente os gatos sabem fazer.
As poltronas pareciam meio velhas, mas ainda confortáveis. Nas paredes algumas prateleiras repletas de livros e objetos estranhos que não era fácil distinguir o que realmente era decoração ali.
Todo aquele cenário parecia dançar calmamente sob a iluminação do fogo, o que deixava Amethista ainda mais entediada.
A garota sentada numa cadeira de madeira e debruçada sobre os braços apoiados no batente da janela.
As vezes olhava para fora.... As vezes para seu reflexo...
As vezes olhava para uma gota qualquer que escorria no vidro e então de repente não estava olhando pra nada.
Ela já estava piscando mais do que o normal, passando mais tempo com as pálpebras fechadas que abertas quando a chaleira começou a apitar.
- Quanta emoção... - ela resmungou consigo mesma. - A água do chá está pronta. Uauu... Acho que vou infartar de tanta empolgação.
Voltou sua atenção para a lareira e movendo suas mãos no ar fez a chaleira flutuar de onde estava diretamente para a mesinha que ficava próxima a uma das poltronas.
O gato ao ouvir o som abanou o rabo uma unica vez. Talvez apenas para dar mostras de que ainda estava vivo.
Amethista se levantou e decidiu terminar o trabalho com as próprias mãos.
Pegou um dos objetos estranhos que decoravam o lugar, encheu de ervas e mergulhou diretamente dentro da chaleira.
Realizou esta tarefa com o mesmo cuidado que um rinoceronte teria ao tentar passar um fio pelo buraco de uma agulha.
...Então se largou sentada na maior e mais larga das poltronas individuais que havia ali.
- Ikaos. - ela chamou. - Acorda seu gato gordo. Vai chamar o Yue. O chá está pronto.
O gato nem se moveu. Estaria realmente morto?
- Ikaaaooos... - Amethista chamou novamente, sem animo. - Anda... Levanta...
Mais uma vez o gato não se moveu.
Ainda sentada na poltrona, Amethista se curvou para frente e passou a encarar o gato com seriedade.
Apertou seus olhos e prestou atenção. Sua iris roxa reluzia por entre as pálpebras com a luz do fogo enquanto ela mordia levemente o canto do lábio inferior, mantendo-se em silêncio e respirando baixinho.
Por alguns instantes o único som além da chuva e do crepitar do fogo era o de um relógio em outro comodo. E por alguns segundos Amethista realmente achou que Ikaos podia ter morrido... Pelo menos até ele levantar e baixar seu rabo em um movimento único.
A garota se pegou em duvida se ficava alegre por ainda haver vida naquele bicho preguiçoso ou se estava decepcionada...
- Pelo menos teria sido alguma agitação... - resmungou novamente consigo enquanto levantava e decidia ir ela mesma até Yue.
Mais uma vez com o movimento dos dedos fez a chaleira flutuar.
- Por favor, siga-me dona chaleira...
E então saiu daquela sala para uma outra ainda maior onde começou a subir uma escaria de madeira.
O resto da Torre, como era chamada aquela casa estranha, não estava tão quente quando a sala da lareira e por um momento ela sentiu frio. Também não estava tão bem iluminada e a pálida luz de fora acabava gerando sombras em móveis e objetos que assumiam um aspecto assustador.
...Mas não se pode dizer que ela estava assustada. Na verdade, talvez até se alegrasse caso visse um monstro ou fantasma, mas eram apenas móveis e velharias.
Ela parou diante de uma porta de madeira.
- Yue, trouxe o chá. - e bateu na porta enquanto a chaleira flutuava perto dela. - E é melhor que você queira chá. Por que se você não quiser...
Ninguém respondeu do lado de dentro do quarto.
- Yue? - ela chamou novamente enquanto batia outra vez. - Você está me ouvindo? Yue...
Um arrepio correu por sua espinha quando mais uma vez ninguém respondeu, mas talvez fosse apenas frio...
Olhou para baixo e viu uma estranha e oscilante luz saindo da fresta sob a porta.
Sua mão imediatamente subiu em direção a maçaneta.
Ela segurou firmemente e pensou duas vezes antes de girar. Mas girou... E a porta começou a se abrir devagar.
A luz de um ensolarado dia começou a escapar e a cegou brevemente ao mesmo tempo em sentia um calor de verão sendo soprado contra seu corpo pelo vento que emanava de dentro do quarto.
Seus olhos então se acostumaram com a luz e a porta que antes dava para o quarto de Yue, que ficava no alto daquela construção, provavelmente o equivalente ao quinto andar de um prédio, agora era a passagem para um bosque campo verdejante e ensolarado.
A chaleira que até então estava flutuando atrás de Amethista foi direto ao chão. Seu queixo também teria ido, mas uma vez preso pelos músculos da bochecha ele se contentou em ficar largado em boca aberta.
A garota ainda virou para o lado afim de observar a janela que havia no final do corredor, mas do lado de fora a mesma chuva vinda do céu cinza ainda caía.
Ela estava prestes a entrar quando alguém a segurou pela mão, entrelaçando seus dedos com os dela e fazendo a garota desviar a atenção.
Amethista se virou e contemplou Yue.
- Acho melhor deixarmos esse quarto fechado por enquanto, Amethista. - e com cuidado ele começou a puxar a porta para fechar.
- Mas... Por que? Esse lugar é lindo!
- Realmente é lindo, mas... - ele fez uma pausa proposital em seu discurso enquanto fechava e abria novamente a porta. Dessa vez não havia nada ali senão o seu velho e gelado quarto.- ...Prefiro não te perder pra ilusões.
Dessa vez Amethista entrou no quarto e começou a olhar ao redor, incrédula.
- Como você fez isso? - ela finalmente perguntou, depois de alguns segundos.
- Você quer mesmo saber?
- Claro que sim!!! - estava eufórica.
- Eu troco a informação por chá...
- Chá...?
"AAAAAAAAAH!!!! O CHÁÁÁÁ!!!!"
sexta-feira, 16 de maio de 2014
Yue Jaded e Amethista 02
Ouvindo: Gackt - Saikai Story (Instrumental)
Inconscientemente seus movimentos se tornaram mais lentos e mais comedidos.
Estava a metros de distancia de seu alvo, mas ainda assim se encolheu atrás de uma árvore e não conseguiu evitar rir baixinho.
Lentamente voltou a olhar... Ele ainda estava ali, parado.
- Eu tenho que ser rápida! - ela pensou consigo mesma.
Saiu de seu esconderijo. Se posicionou ao lado da árvore e retesou seus músculos.
Uma brisa suave soprou em sua direção. Ela sentiu o cheiro da grama e das flores, mas nem percebeu. E então, de repente, irrompeu numa corrida desenfreada e até mesmo um pouco desajeitada, tentando atingir a maior velocidade possível no menor tempo.
A consequência foi uma grande aceleração numa corrida completamente descoordenada.
Seu grito veio tarde, mais como um aviso de cuidado do que como uma recepção calorosa, ainda assim, saltou sobre sua presa com toda a velocidade que havia conquistado.
- Yueeeeeeeeee!!! - gritou Amethista quando pulou.
E que pulo...
Ela havia adquirido este costume recentemente. Aproveitava-se de qualquer oportunidade possível para tentar pegar Yue desprevenido.
Todas as outras tentativas haviam resultado em falha, no entanto, ironicamente naquela ela foi bem sucedida.
Yue, que estava de costas para a garota mal teve tempo de se virar para olhar quando seus corpos se encontraram.
A cena passou para ele como que em câmera lenta. Uma garota de longos cabelos roxos o atingindo com a fúria de mil sóis numa espécie de abraço que mais parecia um jogador de futebol americano tentando atropelá-lo. De repente o céu apareceu diante de seus olhos e então o chão e novamente o céu.
Ele não apenas caiu para trás com Amethista sobre si, mas ambos acabaram rolando barranco abaixo numa mistura de braços, pernas, grama e flores arrancadas até finalmente pararem, metros longe de onde estavam.
Amethista começou a rir antes mesmo de Yue soltá-la.
Ele ainda teve tempo de abraçar e tentar proteger a cabeça da amiga de qualquer pedra enquanto amenizava a maior parte do impacto para ela, mas seu esforço passou completamente despercebido.
Ele ainda teve tempo de abraçar e tentar proteger a cabeça da amiga de qualquer pedra enquanto amenizava a maior parte do impacto para ela, mas seu esforço passou completamente despercebido.
Naquele momento esta estava tão satisfeita consigo mesma que vazava alegria pelos poros.
- Eu consegui! - disse ela, eufórica. - Finalmente consegui!
Yue ainda estava deitado em silêncio olhando para o alto e vendo as coisas girarem enquanto a garota corria ao seu redor como uma criança de seis anos.
- Eu te peguei, Yue Jaded! MWA HA HA HA! - ela falou, parando e apontando para ele com uma pose de super vilã que não combinava em nada com as flores espalhadas pelo seu cabelo bagunçado e muito menos com as manchas de terra no rosto.
- Ok. Ok... Eu admito. Você me pegou, Amethista.
- MWA HA HA!
- Agora com licença... Eu tenho que me transformar em bolo.
- Sim, sim... Em bolo! Não, pera... Como é que é?!
Quando Amethista olhou novamente para onde Yue deveria estar só havia um enorme bolo de chocolate transbordando recheio pelas laterais.
Ela piscou algumas vezes, perplexa. Aproximou-se lentamente e com todo cuidado cutucou parte do recheio com o dedo.
Ainda mais devagar ela levou o dedo até a boca e...
- É bolo mesmo...
- Sim... Sou um bolo.
- Você não pode ser um bolo, Yue!!!
- Agora que você me pegou minha maldição foi quebrada... Posso viver feliz em minha forma original. Eu sou um bolo, Amethista.
- Não...
Foi então que Yue-Bolo arremessou um morango que atingiu Amethista bem na testa.
- Hey! Não...
- Eu não posso evitar... - disse Yue-Bolo enquanto jogava outro morango e a atingia na bochecha. - É minha natureza de bolo!
Outro morango a atingiu... E mais outro... E outro...
Até que ela finalmente a garota acabou pegando um deles com a boca em pleno ar.
Quando seus olhos se abriram Amethista encarou diretamente os olhos negros de Yue. Ele a olhava com uma expressão curiosamente estranha e foi então que ela sentiu algo fazer cocegas em sua língua. Olhou para baixo e percebeu que tinha o dedo indicador de Yue dentro da boca.
Ela cuspiu e gritou, se afastando tão rápido pela cama que acabou caindo no chão e puxando os lençóis pela borda oposta.
- Bom dia, bela adormecida. - Yue falou como se nada tivesse acontecido.
- Bom dia... - respondeu Amethista, sonolenta e frustrada, no chão, levantando uma mão para acenar que estava bem.
- Que tipo de sonho você estav...
- Cala a boca. Saí daqui! - ela respondeu de imediato sem deixar o garoto finalizar sua pergunta. Yue achou melhor obedecer. Deu de ombros e saiu do quarto coçando a cabeça.
"Você fica melhor como bolo, seu idiota."
quinta-feira, 15 de maio de 2014
Yue Jaded e Amethista
Ouvindo: L'arc en Ciel - Forbidden Lover (Piano Instrumental)
A noite estava fria e calma.
A noite estava fria e calma.
Mais uma daquelas noites solitárias em que o céu nublado parece fazer nossos pensamentos se perderem enquanto as nuvens escondem qualquer luz de esperança, seja da lua ou das estrelas.
Na cidade o movimento continuava o mesmo. Sexta feira... Quase sábado. Carros e pessoas passando.
Para elas não havia esta tal solidão. Ou talvez existisse sim. Uma marca tão fria quanto aquela noite, em cada coração humano que desesperadamente buscava por companhia, fosse nos amigos, em um abraço, em um beijo. Talvez em uma boa dança ou em um copo de bebida como aquele que ele raramente tomava.
Sempre lugares altos. sempre distantes da multidão... Um costume que poucas pessoas haviam notado ao longo de tantos e tantos anos humanos.
Contemplava o céu como há muito tempo não fazia...
Ouvia o vento soprando e não mais reconhecia as mensagens que trazia.
De todos os corações daquele lugar, seria aquele o mais solitário?
Leve como uma pluma a angelical garota veio descendo flutuando.
Ele, sentado no parapeito da sacada não esboçou qualquer reação quando ela parou levitando no ar bem diante dele.
...Como se fosse a coisa mais normal do mundo...
O tom roxo dos cabelos ondulados dela facilmente podiam ser confundidos com preto ou ruivo. Os longos fios balançavam ao vento.
Ela o fitava com olhos de iris igualmente roxas. Apertava os lábios em uma expressão preocupada de quem procura no outro a razão para tamanha apatia.
Uma busca continua e sempre sem respostas.
Ele não desviou o olhar. Encarava aqueles olhos quase ingênuos com os seus. Negros, profundos... Talvez vazios ou talvez tão repletos de memórias...
Alguém na rua, metros abaixo de onde estavam, gritou alto e riu. Uma garota que corria de sua amiga em uma espécie de brincadeira de bêbados. Foi como uma deixa para o suspiro de Amethista.
Ela inspirou profundamente e fechou os olhos enquanto deixava o ar escapar lentamente. Seu sorriso aumentou devagar até tomar por completo seus lábios, então, ainda flutuando no ar, aproximou-se de Yue até seus rostos não estarem mais distantes que um palmo.
Ainda sério, com a mesma expressão vazia, ele continuava a olhar.
Seus olhos não se descolaram nem por um momento enquanto ela lentamente ergueu a mão e com o dedo indicador cutucou a testa do parceiro.
- Vai acabar com rugas, senhor Yue Jaded. - Ela falou em tom descontraído, mas ele não reagiu ou respondeu. - E o que é isso que está bebendo?
Ela cheirou o ar e por um momento pareceu uma coelha ou um cachorro desconfiado.
- Isso é vodka? - Perguntou com olhos apertados. - Não acredito.
- Sake... - Disse Yue, respondendo enfim.
- E por que é que o senhor está tomando sake, senhor Yue? - ela perguntou enquanto que por dentro só conseguia pensar: "Isso, mantenha-o falando".
- É meu aniversário.
- Mentiroso...
- É o seu aniversário...
- NÃO É MEU ANIVERSÁRIO! - Amethista respondeu quase gritando.
- Eu estou bebendo... Por que...
- Por que...?
Ele pegou a garrafa e ergueu entre os dois bem na altura dos olhos.
- Olhe bem... - Ele disse enquanto agitava o conteúdo.
- O que é que tem?
- Eu bebo por que é liquido. Se fosse solido talvez eu comesse...
Um breve momento de silêncio se seguiu entre os dois depois desta péssima piada e Amethista se contentou em sorrir e balançar a cabeça em negação. Ela sabia, melhor do que ninguém, como ele se sentia. Estavam conectados de uma forma profunda e inseparável. Ainda assim, mesmo conhecendo seus sentimentos, ela não tinha como saber as razões.
Então como de costume ele fazia alguma piadinha e sorria. Apenas mais uma mentira... Apenas para dizer "Estou bem. Não se preocupe.".
- Seu idiota...
Ela sentou no parapeito da sacada bem ao lado de Yue e roubou seu copo.
- Hey, pega leve com isso. - Ele falou enquanto ela virava o conteúdo em um gole só. - Da última vez eu tive que te carregar.
- Recarrega! - Ela respondeu, ignorando totalmente o aviso e estendendo o copo.
- Já consigo prever como essa noite vai terminar...
Encheu o copo de Amethista e depois bebeu da própria garrafa.
Olhavam para as luzes da cidade, para os carros passando e para o grupo de amigos no qual as duas garotas que ainda a pouco brincavam agora cantavam desafinadas alguma musica velha.
- Yue... - Começou Amethista, sentindo as bochechas mais quentes e o álcool começando a subir. - Por que é que você quer destruir esse mundo afinal?
- ...Por que será...? - Ele respondeu, evasivo como sempre. E ela bebeu mais um gole.
- Yue... - Dessa vez ela se virou para olhá-lo. - Se você quer tanto assim... Faça o desejo...
...E ele se virou para encarar Amethista nos olhos e o vento soprou mais forte movendo suas roupas e cabelos.
- Faça o desejo... E eu realizarei.
Após alguns segundos naquela situação silenciosa, ela de repente se sentiu muito envergonhada e se virou pra frente, fazendo qualquer comentário bobo a respeito das pessoas na rua. Mais uma vez bebeu tudo de uma vez só e mais uma vez pediu mais.
Horas mais tarde Yue estava carregando nas costas uma jovem garota bêbada e meio adormecida.
Andava por uma rua quase deserta que já não era mais a mesma daquela grande cidade, mas sim um lugar totalmente diferente em um outro mundo.
- Você é quentinho! - dizia ela vez ou outras e o apertava firmemente como a um urso de pelúcia. Volta e meia também falava coisas como "Vamos nos mudar?", "Ikaos está muito gordo!", "Eu quero beber mais!"...
De Yue as respostas eram "Mesmo?", "Vamos sim.", "Sim" e "Nada mais de bebida pra você por hoje".
Ele a colocou na cama, tirou seus sapatos e a cobriu com o cobertor.
Estava prestes a sair quando ela o segurou pela mão.
- Vai ficar tudo bem... - Ela falou. - Eu prometo. Eu vou cuidar de você.
Yue sorriu.
- Você fala demais pra uma bêbada, sabia? - disse ele enquanto se abaixava ao lado da garota e ajeitava seu cabelo roxo para dar um beijo em sua testa.
"Obrigado..."
Contemplava o céu como há muito tempo não fazia...
Ouvia o vento soprando e não mais reconhecia as mensagens que trazia.
De todos os corações daquele lugar, seria aquele o mais solitário?
Leve como uma pluma a angelical garota veio descendo flutuando.
Ele, sentado no parapeito da sacada não esboçou qualquer reação quando ela parou levitando no ar bem diante dele.
...Como se fosse a coisa mais normal do mundo...
O tom roxo dos cabelos ondulados dela facilmente podiam ser confundidos com preto ou ruivo. Os longos fios balançavam ao vento.
Ela o fitava com olhos de iris igualmente roxas. Apertava os lábios em uma expressão preocupada de quem procura no outro a razão para tamanha apatia.
Uma busca continua e sempre sem respostas.
Ele não desviou o olhar. Encarava aqueles olhos quase ingênuos com os seus. Negros, profundos... Talvez vazios ou talvez tão repletos de memórias...
Alguém na rua, metros abaixo de onde estavam, gritou alto e riu. Uma garota que corria de sua amiga em uma espécie de brincadeira de bêbados. Foi como uma deixa para o suspiro de Amethista.
Ela inspirou profundamente e fechou os olhos enquanto deixava o ar escapar lentamente. Seu sorriso aumentou devagar até tomar por completo seus lábios, então, ainda flutuando no ar, aproximou-se de Yue até seus rostos não estarem mais distantes que um palmo.
Ainda sério, com a mesma expressão vazia, ele continuava a olhar.
Seus olhos não se descolaram nem por um momento enquanto ela lentamente ergueu a mão e com o dedo indicador cutucou a testa do parceiro.
- Vai acabar com rugas, senhor Yue Jaded. - Ela falou em tom descontraído, mas ele não reagiu ou respondeu. - E o que é isso que está bebendo?
Ela cheirou o ar e por um momento pareceu uma coelha ou um cachorro desconfiado.
- Isso é vodka? - Perguntou com olhos apertados. - Não acredito.
- Sake... - Disse Yue, respondendo enfim.
- E por que é que o senhor está tomando sake, senhor Yue? - ela perguntou enquanto que por dentro só conseguia pensar: "Isso, mantenha-o falando".
- É meu aniversário.
- Mentiroso...
- É o seu aniversário...
- NÃO É MEU ANIVERSÁRIO! - Amethista respondeu quase gritando.
- Eu estou bebendo... Por que...
- Por que...?
Ele pegou a garrafa e ergueu entre os dois bem na altura dos olhos.
- Olhe bem... - Ele disse enquanto agitava o conteúdo.
- O que é que tem?
- Eu bebo por que é liquido. Se fosse solido talvez eu comesse...
Um breve momento de silêncio se seguiu entre os dois depois desta péssima piada e Amethista se contentou em sorrir e balançar a cabeça em negação. Ela sabia, melhor do que ninguém, como ele se sentia. Estavam conectados de uma forma profunda e inseparável. Ainda assim, mesmo conhecendo seus sentimentos, ela não tinha como saber as razões.
Então como de costume ele fazia alguma piadinha e sorria. Apenas mais uma mentira... Apenas para dizer "Estou bem. Não se preocupe.".
- Seu idiota...
Ela sentou no parapeito da sacada bem ao lado de Yue e roubou seu copo.
- Hey, pega leve com isso. - Ele falou enquanto ela virava o conteúdo em um gole só. - Da última vez eu tive que te carregar.
- Recarrega! - Ela respondeu, ignorando totalmente o aviso e estendendo o copo.
- Já consigo prever como essa noite vai terminar...
Encheu o copo de Amethista e depois bebeu da própria garrafa.
Olhavam para as luzes da cidade, para os carros passando e para o grupo de amigos no qual as duas garotas que ainda a pouco brincavam agora cantavam desafinadas alguma musica velha.
- Yue... - Começou Amethista, sentindo as bochechas mais quentes e o álcool começando a subir. - Por que é que você quer destruir esse mundo afinal?
- ...Por que será...? - Ele respondeu, evasivo como sempre. E ela bebeu mais um gole.
- Yue... - Dessa vez ela se virou para olhá-lo. - Se você quer tanto assim... Faça o desejo...
...E ele se virou para encarar Amethista nos olhos e o vento soprou mais forte movendo suas roupas e cabelos.
- Faça o desejo... E eu realizarei.
Após alguns segundos naquela situação silenciosa, ela de repente se sentiu muito envergonhada e se virou pra frente, fazendo qualquer comentário bobo a respeito das pessoas na rua. Mais uma vez bebeu tudo de uma vez só e mais uma vez pediu mais.
Horas mais tarde Yue estava carregando nas costas uma jovem garota bêbada e meio adormecida.
Andava por uma rua quase deserta que já não era mais a mesma daquela grande cidade, mas sim um lugar totalmente diferente em um outro mundo.
- Você é quentinho! - dizia ela vez ou outras e o apertava firmemente como a um urso de pelúcia. Volta e meia também falava coisas como "Vamos nos mudar?", "Ikaos está muito gordo!", "Eu quero beber mais!"...
De Yue as respostas eram "Mesmo?", "Vamos sim.", "Sim" e "Nada mais de bebida pra você por hoje".
Ele a colocou na cama, tirou seus sapatos e a cobriu com o cobertor.
Estava prestes a sair quando ela o segurou pela mão.
- Vai ficar tudo bem... - Ela falou. - Eu prometo. Eu vou cuidar de você.
Yue sorriu.
- Você fala demais pra uma bêbada, sabia? - disse ele enquanto se abaixava ao lado da garota e ajeitava seu cabelo roxo para dar um beijo em sua testa.
"Obrigado..."
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