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segunda-feira, 2 de junho de 2014

Yue e Rebeca: Fúria

Post mood: Ellegarden - Space Sonic

- Eu preferia arrancar sua cabeça. - Yue disse por entre os dentes cerrados. Segurava sua espada com firmeza e encarava o adversário com fúria poucas vezes antes vistas. - E provavelmente é isso mesmo que vou fazer.

Ele fincou a espada no chão e a usou para se levantar.
Seu corpo estava ferido em diversas partes. Algumas escoriações e arranhados de todas as vezes que foi arremessado e outros tantos cortes feitos pela espada do adversário.
Seu sangue escorria e se misturava com a sujeira e o suor.
...Mas ele não ligava.

- Vai arrancar minha cabeça? É mesmo?

A voz do adversário era irônica e acompanhada de um sorriso.
Em comparação a Yue ele estava em ótimo estado. Era mais forte, mais alto e seu único ferimento era um corte não muito profundo no braço esquerdo.
Usava uma meia armadura que protegia seu tronco e botas de metal que não pareciam atrasar em nada sua movimentação.
Os olhos do adversário eram de um tom azulado quase cinza e o cabelo loiro curto caindo suado a frente do rosto só aumentava sua expressão de desafio.
Yue não perdeu tempo. Assim que terminou de se por de pé já partiu para mais um ataque obstinado e carregado de ódio.
O primeiro ataque foi aparado pelo adversário e suas pesadas espadas se encontraram numa chuva de faíscas. Afastaram-se e voltaram a pular um sobre o outro, chocando as armas uma vez após a outra em pesados golpes.
A altura do adversário lhe dava vantagem no movimento e por mais que Yue, sem armadura nenhuma, fosse ágil como um gato, ainda assim alguns golpes acabavam o atingindo de raspão. Foi dessa forma que acumulou os cortes. Já as escoriações era devido a força do adversário que volta e meia o empurrava ou jogava para trás. Nessas ocasiões Yue era obrigado a rolar como podia e voltar o mais rápido possível para uma postura defensiva.

- Quando eu acabar com você, não vai sobrar nada. - Yue continuou a falar. - Eu vou arrancar a carne dos seus ossos... E faço questão de te deixar vivo até o ultimo momento para sinta tudo.
- Palavras ousadas para quem está prestes a morrer! - replicou o adversário enquanto desferia mais um dentre tantos golpes que haviam jogado Yue para trás.

...Mas não importava.
Não importava quantas vezes Yue fosse levado ao chão. Não importava quantas vezes fosse arremessado ou atingido de raspão.
Ele se colocava rapidamente de pé e de imediato partia para um novo ataque.
Não havia pausa para recuperar o folego. Não havia pausa alguma!
Apenas uma sucessão de investidas carregadas de raiva que começavam a pesar sobre o adversário que não conseguia atingir um ataque critico sequer apesar de já ter tentado de tudo.
A principio ele quis eliminar Yue o mais rápido possível e focava sua cabeça ou seu tronco, mas com a agilidade do garoto a tarefa não era assim tão simples. Mudou seu plano e passou a objetivar as pernas e talvez os braços, eliminar um membro qualquer para que Yue parasse de mover. Desde então não havia conseguido nada além de gerar arranhões com a ponta de sua espada e acumular cansaço.

- Eu vou fazer você sangrar! - Yue gritou quando mais uma vez competiam força com espadas cruzadas. O adversário impunha seu peso sobre a arma e ainda assim o garoto resistia. - Eu vou fazer você sentir dor!!!

Eles se moviam e forçavam as armas uma contra a outra até Yue gritar e girar seu corpo num impeto de violência. Foi a primeira vez que o adversário foi empurrado e estaria morto se não fosse por sua armadura.
A espada de Yue abriu um rasgo no metal como se fosse feito de papel, mas ele não parou por aí.
Mais uma vez avançou para o ataque e mais uma vez as espadas se chocaram.

- Vou começar arrancando seus dedos... E então sua mão... E eu vou cortar cada pedaço de você até não sobrar nada! - o garoto continuava discursando enquanto atacava e o adversário já não tinha mais forças para responder.

Na verdade ele já não se sentia mais seguro de que conseguiria escapar.
Estava afundando naquela situação enquanto Yue, movido pela raiva, mantinha seus ataques crescendo sem parar. Cada vez mais fortes, cada vez mais pesados e sempre tão contínuos....
E então o próximo ataque veio... E mais um... E o último.
A espada do adversário voou pelo ar. Yue largou a sua simultaneamente e sem perder tempo pulou sobre o adversário desferindo um forte soco em seu rosto.
Os dois foram ao chão e Yue sobre o grande homem não parou de bater.

De onde vinha toda aquela raiva?

O homem não tinha mais qualquer força para reagir, estava largado de costas no chão com Yue sobre ele segurando-o pelo pescoço com a mão esquerda e erguendo a direita em punho cerrado pronto para socar.
A unica coisa que conseguia era torcer para que tudo acabasse ali e aquele demônio furioso não levasse a cabo as torturas que disse que faria.
Yue estava pronto pra desferir o golpe de misericórdia quando foi atingido.

Em poucos segundos ele estava sendo arremessado ao chão por alguma outra pessoa que vinda de um ponto cego simplesmente pulou sobre ele.

- Yue... - ele ouviu uma voz familiar chamar no breve momento em que ainda estava de olhos fechados.

Ali, de costas contra o solo, ele sentiu o abraço quente apertar seu corpo dolorido e aquele perfume entrar em seus pulmões. Sua mão, ainda fechada e pronta para socar, começou a relaxar até se abrir completamente e repousar sobre os cabelos da garota que tinha  a cabeça apoiada contra seu peito.

"...Rebeca."

domingo, 1 de junho de 2014

Yue e Rebeca - Cena na Sacada

- Eu pensei que você não gostasse de festas. - Rebeca falou enquanto se aproximava sorrateiramente. - Apesar de que... Pra você ficar aqui sozinho por tanto então realmente não deve gostar.

Yue virou a cabeça lentamente e fitou a garota.
Ela estava em um vestido vermelho sem decote que terminava pouco acima do joelho e combinava com seus olhos. Havia um grande laço nas costas acima do quadril e o par de fitas descia simetricamente em relação as suas pernas definidas. Seus cabelos igualmente vermelhos estavam cada vez mais compridos e apesar de já atingirem a altura dos ombros, naquela ocasião estavam presos em um penteado que deixava duas mexas da franja caindo uma de cada lado do rosto. Atrás da cabeça o cabelo estava preso em um rabo de cavalo enfeitado com pedras brilhantes.
Ela segurava na mão esquerda uma taça ainda bem cheia de vinho e na outra seu par de sapatilhas.

- E aí... Que tal? - disse ela enquanto dava uma volta ao redor de si mesma.

Rebeca tinha pouco mais de 1,60m de altura, era magra e não muito encorpada, mas naquela ocasião, mesmo se quisesse, Yue não teria como negar...

- Você está linda, Rebeca. - ele respondeu.

E ela realmente estava.
A garota sorriu e bebeu mais um pouco de vinho enquanto se aproximava de Yue, que novamente havia desviado sua atenção para as estrelas no céu.
Ela colocou suas sapatilhas sobre a murada e depois apoiou a mão direita sobre o ombro do parceiro.

- E aí, o que está procurando no céu?
- Nada em especial.
- Sei... O caminho de casa talvez?
- Talvez...

Havia algo de estranho no comportamento da garota e ele podia perceber. Talvez fosse apenas a bebida, mas imediatamente desviou seu olhar na direção de Rebeca e fez uma cara desconfiada.

- O que você está tramando, Rebeca?
- Tramando? Eu?! Hahaha!!! - e levou a taça até a boca enquanto que com o canto dos olhos procurou olhar para Yue para ver se ele a estava olhando... E que droga, ele estava. Perceber isto fez com que seu gole de vinho se transformasse na taça inteira descendo por sua garganta de uma só vez.
- Quanto você já bebeu? - ele perguntou logo em seguida.

Ela colocou a taça ao lado das sapatilhas sobre a murada e suspirou profundamente recuperando o folego.

- Não o suficiente, pelo visto.

Dessa vez Yue virou o corpo todo na direção da garota e a olhou com olhos ainda mais desconfiados.
Ela, percebendo o movimento, tratou de desviar o olhar para qualquer outro canto que não fosse onde ele estava.
Mas ela podia sentir. Mesmo sem ver ela sabia que ele continuava ali parado a encarando pelas costas com sua cara de "O que você está aprontando, mocinha?". Por quantas vezes eles haviam passado por situações parecidas desde que Yue Jaded havia se tornado seu Protetor?
Pensar nisso a fez sorrir. "E pensando bem... Que se dane."
Ela virou de uma só vez, o encarou nos olhos e falou impetuosamente:

- Você tem que dançar comigo!

..."Não... Pera... Como assim 'Que se dane'?!"

Os segundos constrangedores que sucederam sua ousada ordem foram suficientes para ela concluir que talvez realmente já tivesse bebido demais, mas ainda não o suficiente para não se lembrar da vergonha que estava sentindo naquele momento.
A demora de Yue para responder parecia de propósito e Rebeca apenas o encarou a principio, mas logo surgiu uma imensa vontade de escapar para dentro do salão.
Ela mal teve tempo de desviar seu olhar para lá e tentar se mover quando Yue a segurou pela mão.

- Melhor calçar suas sapatilhas, senhorita Rebeca. - ele falou e a garota lentamente voltou sua atenção novamente para ele. - A menos que queira dançar descalça, é claro.

Rebeca calçou as sapatilhas apenas com a mão esquerda.
Mais tarde ela não conseguiria recordar se havia sido ele quem continuou segurando sua mão ou se foi ela que se recusou a soltar depois de terem se unido daquela forma. Fosse como fosse, ainda estavam de mãos dadas quando terminou de calçar.

- Pronto. - ela falou e sua voz saiu mais como um sussurro.
- Já que podemos ouvir a musica daqui, que tal se dançarmos aqui mesmo?
- Aqui...? - ela perguntou enquanto olhava ao redor. Estavam sozinhos naquela grande sacada sob um estrelado céu noturno de verão.
- Prefere lá dentro?
- Não! Não! Aqui! Com certeza aqui! Aqui está ótimo!

Yue sorriu diante da reação da garota e ela acabou sorrindo também por consequência.
Ele envolveu sua cintura com a mão direita e a puxou suavemente para mais perto de si. Os primeiros passos foram desajeitados, mas logo os dois estavam lentamente dançando ao som da música que a orquestra tocava no interior do salão.

- Yue... - ela falou enquanto apoiava encostava sua cabeça no peito do parceiro.
- Sim?
- Se você pisar no meu pé... Eu te juro que te mato.

sexta-feira, 30 de maio de 2014

Yue e Amethista: Cena na Torre

Era uma destas tardes de outono.
Do lado de fora a chuva caía fria e em gotas finas que escorriam pela janela de vidro. O céu estava nublado e nem sequer havia muito vento. Apenas aquele gotejar monótono e contínuo que facilmente nos coloca pra dormir.
Do lado de dentro o fogo ardia na lareira onde uma grande chaleira havia sido pendurada e começava a fumegar.
Havia ali também, no centro da sala sobre o piso de pedra um grande tapete felpudo, de fios altos e marrons onde um gato gordo e de pelo branco dormia confortavelmente. Estava esparramado daquele jeito que somente os gatos sabem fazer.
As poltronas pareciam meio velhas, mas ainda confortáveis. Nas paredes algumas prateleiras repletas de livros e objetos estranhos que não era fácil distinguir o que realmente era decoração ali.
Todo aquele cenário parecia dançar calmamente sob a iluminação do fogo, o que deixava Amethista ainda mais entediada.
A garota sentada numa cadeira de madeira e debruçada sobre os braços apoiados no batente da janela.
As vezes olhava para fora.... As vezes para seu reflexo...
As vezes olhava para uma gota qualquer que escorria no vidro e então de repente não estava olhando pra nada.
Ela já estava piscando mais do que o normal, passando mais tempo com as pálpebras fechadas que abertas quando a chaleira começou a apitar.

- Quanta emoção... - ela resmungou consigo mesma. - A água do chá está pronta. Uauu... Acho que vou infartar de tanta empolgação.

Voltou sua atenção para a lareira e movendo suas mãos no ar fez a chaleira flutuar de onde estava diretamente para a mesinha que ficava próxima a uma das poltronas.
O gato ao ouvir o som abanou o rabo uma unica vez. Talvez apenas para dar mostras de que ainda estava vivo.
Amethista se levantou e decidiu terminar o trabalho com as próprias mãos.
Pegou um dos objetos estranhos que decoravam o lugar, encheu de ervas e mergulhou diretamente dentro da chaleira.
Realizou esta tarefa com o mesmo cuidado que um rinoceronte teria ao tentar passar um fio pelo buraco de uma agulha.
...Então se largou sentada na maior e mais larga das poltronas individuais que havia ali.

- Ikaos. - ela chamou. - Acorda seu gato gordo. Vai chamar o Yue. O chá está pronto.

O gato nem se moveu. Estaria realmente morto?

- Ikaaaooos... - Amethista chamou novamente, sem animo. - Anda... Levanta...

Mais uma vez o gato não se moveu.
Ainda sentada na poltrona, Amethista se curvou para frente e passou a encarar o gato com seriedade.
Apertou seus olhos e prestou atenção. Sua iris roxa reluzia por entre as pálpebras com a luz do fogo enquanto ela mordia levemente o canto do lábio inferior, mantendo-se em silêncio e respirando baixinho.
Por alguns instantes o único som além da chuva e do crepitar do fogo era o de um relógio em outro comodo. E por alguns segundos Amethista realmente achou que Ikaos podia ter morrido... Pelo menos até ele levantar e baixar seu rabo em um movimento único.
A garota se pegou em duvida se ficava alegre por ainda haver vida naquele bicho preguiçoso ou se estava decepcionada...

- Pelo menos teria sido alguma agitação... - resmungou novamente consigo enquanto levantava e decidia ir ela mesma até Yue.

Mais uma vez com o movimento dos dedos fez a chaleira flutuar.

- Por favor, siga-me dona chaleira...

E então saiu daquela sala para uma outra ainda maior onde começou a subir uma escaria de madeira.
O resto da Torre, como era chamada aquela casa estranha, não estava tão quente quando a sala da lareira e por um momento ela sentiu frio. Também não estava tão bem iluminada e a pálida luz de fora acabava gerando sombras em móveis e objetos que assumiam um aspecto assustador.
...Mas não se pode dizer que ela estava assustada. Na verdade, talvez até se alegrasse caso visse um monstro ou fantasma, mas eram apenas móveis e velharias.
Ela parou diante de uma porta de madeira.

- Yue, trouxe o chá. - e bateu na porta enquanto a chaleira flutuava perto dela. - E é melhor que você queira chá. Por que se você não quiser...

Ninguém respondeu do lado de dentro do quarto.

- Yue? - ela chamou novamente enquanto batia outra vez. - Você está me ouvindo? Yue...

Um arrepio correu por sua espinha quando mais uma vez ninguém respondeu, mas talvez fosse apenas frio...
Olhou para baixo e viu uma estranha e oscilante luz saindo da fresta sob a porta.
Sua mão imediatamente subiu em direção a maçaneta.
Ela segurou firmemente e pensou duas vezes antes de girar. Mas girou... E a porta começou a se abrir devagar.
A luz de um ensolarado dia começou a escapar e a cegou brevemente ao mesmo tempo em sentia um calor de verão sendo soprado contra seu corpo pelo vento que emanava de dentro do quarto.
Seus olhos então se acostumaram com a luz e a porta que antes dava para o quarto de Yue, que ficava no alto daquela construção, provavelmente o equivalente ao quinto andar de um prédio, agora era a passagem para um bosque campo verdejante e ensolarado.
A chaleira que até então estava flutuando atrás de Amethista foi direto ao chão. Seu queixo também teria ido, mas uma vez preso pelos músculos da bochecha ele se contentou em ficar largado em boca aberta.
A garota ainda virou para o lado afim de observar a janela que havia no final do corredor, mas do lado de fora a mesma chuva vinda do céu cinza ainda caía.
Ela estava prestes a entrar quando alguém a segurou pela mão, entrelaçando seus dedos com os dela e fazendo a garota desviar a atenção.
Amethista se virou e contemplou Yue.

- Acho melhor deixarmos esse quarto fechado por enquanto, Amethista. - e com cuidado ele começou a puxar a porta para fechar.
- Mas... Por que? Esse lugar é lindo!
- Realmente é lindo, mas... - ele fez uma pausa proposital em seu discurso enquanto fechava e abria novamente a porta. Dessa vez não havia nada ali senão o seu velho e gelado quarto.- ...Prefiro não te perder pra ilusões.

Dessa vez Amethista entrou no quarto e começou a olhar ao redor, incrédula.

- Como você fez isso? - ela finalmente perguntou, depois de alguns segundos.
- Você quer mesmo saber?
- Claro que sim!!! - estava eufórica.
- Eu troco a informação por chá...
- Chá...?

"AAAAAAAAAH!!!! O CHÁÁÁÁ!!!!"

terça-feira, 27 de maio de 2014

Iriahin - A Prisão do Príncipe (Parte 2)

O momento de silêncio constrangedor  que se seguiu enquanto Iriahin sorria foi suficiente para Anderaken se decidir e agir.
Apesar de mal ter entrado no quarto, assim que que concluiu que o filho realmente estava aprontando algo, correu para fora e trancou a porta.
Iriahin ficou perplexo por um momento e não teve sequer tempo para reagir antes do som da chave sendo girada chegar aos seus ouvidos.
O príncipe correu até a porta e começou a bater com os punhos cerrados.

- Oe, pai! Mas que é isso?! - ele perguntou, gritando e iniciando a conversa através da porta fechada.
- Que caia o mundo se eu não estiver certo, Iriahin! Conte-me já o que está planejando ou não vai sair deste quarto!
- Então se segura aí que vai cair!
- Tem a ver com o seu casamento, não é?

Iriahin se calou imediatamente e por um momento só conseguiu pensar: "Velho maldito! Como é que sempre sabe?".
O plano foi executado sem falhas e no mais completo sigilo. Teria sido apenas azar o rei resolver visita-lo justo naquela noite?
De qualquer forma não adiantava mais nada negar. No momento em que Iriahin se calou, Anderaken soube que estava certo e fez questão de deixar isso claro na sua próxima fala...

- Tens uma bela noiva te esperando e um futuro ainda melhor a vir pela frente, Iriahin.
- Bela noiva?! - o príncipe pareceu realmente surpreso com aquela afirmação. - Tem mais beleza num "borthelon" do que em Schell, pai.
- Mas que exagero, Iriahin! Você não acha que já é hora de aprender a se comportar? Você é filho de Anderaken, Senhor de Taslon. É príncipe da Cidade do Amanhecer e deve pensar e agir como tal!
- Pois que seja! Se é dessa forma que diz, então digo que não me caso.
- Sinto muito, Iriahin! Mas até que cresça você não tem como escolher.
- Hehehe. Ah é?! Então eu aceito o desafio, senhor rei!

Aquelas palavras...
Fisicamente pai e filho não eram muito parecidos. Iriahin havia puxado mais a sua mãe que ao pai.
No entanto, em relação a teimosia, orgulho e espirito de luta os dois estavam páreo a páreo.
O que Iriahin fez foi transformar a coisa toda em um jogo para ambos. Um jogo muito importante que envolveria todo o futuro de Taslon e seus cidadãos, um casamento, nobres, promessas e honras e principalmente... Pai e filho.

- Mas você só pode ter ficado louco. Ainda pretende me desobedecer, Iriahin? - retrucou Anderaken em um tom mais sério.
- Eu nunca planejei casar, pra começo de conversa!
- Pois então aceito teu desafio, moleque! Está preso em teu quarto até o dia de teu casamento. Vai ter uma lição do que é desafiar o próprio sangue.
- Ha! Você é quem vai ver! Você não tem como me manter aqui dentro!
- Não por isso, moleque. Há muitas correntes no calabouço!
- ...Ainda soa melhor do que casamento. - constatou Iriahin, refletindo sobre o assunto.
- Pois saia deste quarto e logo descobrirá! Passar bem, meu filho!
- Boa noite, papai!

Havia um tom cômico e infantil na forma como os dois perdiam a paciência e acabavam discutindo.
Iriahin deu um soco na porta e fez uma careta.
Manteve a mão em punho cerrado de encontro com a madeira enquanto respirava bufando por alguns segundos.
Foram momentos de silêncio e introspecção nervosa que se resultaram em um único pensamento final...

- Aaaaah! MAS O QUE FOI QUE EU FIZ?! - ele falou alto enquanto levava as duas mãos à cabeça.

Sem perceber ele havia caído direitinho no jogo de seu pai e agora estava ali, trancado no próprio quarto sem ter a menor ideia de como faria para chegar ao ponto de encontro onde Aldel provavelmente já aguardava.
Não demorou até ele ouvir dois ou talvez três soldados se aproximarem da porta do quarto pelo lado de fora.
Era óbvio que Anderaken não facilitaria e aqueles soldados montando guarda eram um claro sinal disso.
Aquela altura toda a guarda do castelo e todos os empregados já deveriam estar cientes do castigo do príncipe.
Iriahin andou de um lado para o outro no quarto tentando pensar em algum plano, mas...

- Tudo o que posso fazer é não piorar a situação. - falou consigo mesmo novamente enquanto caía de costas na cama.

Os boatos se espalhariam e logo Aldel saberia do ocorrido.
Talvez então tivessem alguma chance.

- Eu não podia desejar melhor começo pra esta aventura... - e sorriu. - ...Se fosse fácil, não valeria a pena.

quarta-feira, 21 de maio de 2014

A Prisão do Príncipe (Parte 1 )

- Veja isto, Aldel. - disse Iriahin sobre uma enorme escada de onde arremessou um pesado livro para o amigo. Aldel exitou um momento sem saber se agarrava o livro ou desviava dele. Decidiu agarrar. - Página trezentos e oitenta e seis, "A Flor de Lanta".

O naithlyn carregou o livro para uma mesa onde muitos outros já estavam abertos. Folheou as páginas e encontrou a que Iria havia falado.

- A Flor de Lanta é extremamente rara. - começou a narrar em voz alta o texto enquanto lia. Iriahin pulou do alto da escada direto para o chão e se aproximou do amigo. - Encontra-se geralmente em regiões pantanosas de difícil acesso. Seu perfume é tão desagradável quanto os próprios pântanos e a coloração de suas pétalas estão relacionadas com a intensidade do cheiro...".

Aldel parou de falar e se virou lentamente para Iriahin.

- Eu não acredito nisso. - disse o naith.
- Vamos para o norte, Aldel.
- Pântanos nojentos... E perigosos... Não que eu ligue de correr riscos, mas... Por uma flor fedorenta?
- Será divertido!
- Não duvido, mas confesso que odeio pântanos. Além disso, vamos precisar de muita comida.
- Nem tanto. - Iriahin respondeu sentando numa cadeira e colocando os pés sobre a mesa.
- Nem tanto...? - Aldel estranhou, mas logo entendeu. - Você está pensando em cruzar a região sem dono, não é?
- Se é sem dono... - O garoto deu de ombros e quase caiu com cadeira e tudo quando a inclinuou para trás. - Não será por muito tempo.

Aldel estava sorrindo. Sentia o friozinho barriga de ansiedade, mas ainda assim ponderava os riscos de tudo que o amigo estava lhe dizendo.
Pode-se dizer que nesse sentido Iriahin sempre foi mais naithlyn que Aldel.
Uma das características do naithlyns é a despreocupação e a simplicidade de pensamento. No entanto, é provável que em seu curto período de vida Aldel tenha se metido em três ou quatro vezes mais confusões na companhia de Iriahin do que um naithlyn comum conseguiria durante toda sua longa vida. Ter se tornado um gato cuidadoso não é apenas natural, mas uma evolução para garantir sua auto-preservação.
Agora ele coçava com o dedo indicador direito a região da testa próxima a sua gema e Iriahin sabia que isso significava que Aldel provavelmente não estava conseguindo pensar em mais nada problemático.

- Uma aventura geralmente compensa os perigos com riquezas, não é? O que vamos ganhar com isso além da flor fedorenta? Que raios de aventura será essa a nossa?
- Nossa aventura...?

Iriahin se levantou de uma vez só e a cadeira de madeira foi direto de encontro ao chão. Ele inspirou fundo e começou seu teatro.

- É a aventura de um apaixonado! Um louco desesperado! - pulou sobre a mesa e cerrou a mão em punho. - A aventura de um herói disposto a arriscar a própria vida como prova de amor!

Iriahin foi erguendo a mão cerrada para cima como se elevasse uma espada aos céus. Estava tão inserido em seu personagem que seus olhos brilhavam reluzindo as luzes das velas da biblioteca.
Aldel se limitava a assistir. Não era a primeira vez que presenciava um surto teatral de Iria.
Na verdade, aquilo era mais frequente do que pode-se imaginar. Mas para trazer o amigo de volta a realidade ele arremessou um livro que quase o atingiu na cabeça.

- Caro senhor louco apaixonado. Pelo que eu bem te conheço seus maiores tesouros são seus problemas. Mas e a minha parte?
- ...Que tal metade dos meus tesouros e minha eterna gratidão?
- Em outras palavras, nada além da boa amizade.
- Isso... E  metade do que encontrarmos de valor.
- Gosto da parte da amizade e da metade do que encontrarmos de valor. Como sou muito gentil deixo você ficar com seus tesouros problemáticos.
- Quanta gentileza, senhor Aldel! Muito obrigado!
- Então...

Iriahin encarnou novamente seu galante personagem e ainda em cima da mesa voltou a erguer a mão.

- Que se inicie esta nossa nobre aventura em busca do perfume que o amor merece!

Os dois riram muito aquele dia.
Pegaram um mapa e começaram a planejar a rota de viagem. Paravam aqui e ali para comentar sobre as peculiaridades de certas regiões e também para imaginar a cara que Schell faria ao receber tal sinal de afeto.
Decidiram tudo. Dia e horário da partida, onde seria o ponto de encontro, o trajeto que fariam e a quantidade de suprimentos necessário.
Nos próximo dias dividiram as tarefas e as executaram metodicamente tomando precauções para não serem descobertos.
Parecia estar tudo certo, a unica coisa com a qual não contavam era...

- Iriahin. - disse Anderaken, pai de Iriahin e rei de Taslon, do lado de fora do quarto enquanto batia na porta.

Era um homem alto e de porte imponente. Tinha longos cabelos brancos e lisos, olhos azuis escuros como o oceano e pele clara. Sua expressão sempre calma e séria passava a impressão de ser um bom homem e um bom rei.

- Hey, pai! Tudo bem? - disse Iriahin, tentando disfarçar e empurrando sua mochila para debaixo da cama com o pé.

Não era incomum Anderaken visitar seu filho em seu quarto, mas notavelmente Iriahin não esperava por aquilo justo naquela ocasião.
Era como se o rei tivesse farejado no ar que o filho estava prestes a aprontar alguma coisa.
E não era pra menos...
Da mesma forma que Aldel havia aprendido a preservar o que ainda restava de suas vidas de gato, Anderaken também havia desenvolvido habilidades inconscientes de notar alterações no comportamento do filho e ele sabia que para ter certeza só precisava fazer uma pergunta.

- Iriahin... - disse ele em tom sério e desconfiado, propositadamente prolongando a ultima silaba do nome do filho. - O que é que você está aprontando agora?
- Aprontando...? Eu...?

E estava feito...
Os olhos de Anderaken se apertaram e ele imediatamente soltou uma rajada de ar pelo nariz. Sua testa se franziu em preocupação e sua boca se torceu numa notável expressão de desconforto.
Por mais que o rei não soubesse do que se tratava, ele tinha certeza que o filho estava aprontando.
Frente aquilo Iriahin fez a unica coisa que conseguia se lembrar de fazer...


- Hehe... - ...Sorrir descaradamente como cínico culpado.

terça-feira, 20 de maio de 2014

Iriahin - Príncipe de Taslon

Ouvindo: Symphonic Fantasies - Chrono Medley part 1/2 e 2/2

- Hahaha, veja só isto Aldel... - disse Iriahin com voz irônica enquanto lia uma carta e gesticulava teatralmente para enfatizar o que narrava. - "Não há momento do dia que não pense em você e sinto-me mais feliz a cada nova manhã. Meu amor cresce a cada segundo...". Aí vem um monte de blá-blá-blá... E... Aqui! "Anseio pelo dia em que fitarei mais uma vez o brilho de Taslon em seu olhar...". HÁ! Pois que vá sonhando!

O garoto amassou a carta, jogou para cima e com um chute a mandou para dentro da floresta.
Este era Iriahin, príncipe daquela conhecida como Taslon, a Cidade do Amanhecer, e filho de Anderaken. Um garoto que aparentava não ter mais que dezoito anos. Olhos escuros, castanhos no claro e eventualmente azulados em algumas ocasiões. Cabelos negros e sempre bagunçados apesar de todos os esforços que seus cuidadores reais sempre tiveram para com ele.
De fato, da realeza Iriahin só carregava o título, pois pela aparência e comportamento dificilmente seria tomado por príncipe.
O cabelo despenteado era apenas parte de seu visual. Tinha conjuntos de roupas velhas, sujas e rasgadas guardadas nos mais diversos cantos da cidade e do castelo, prontas para serem usadas sempre que escapava do castelo.
E não é preciso dizer que "escapar" do castelo era algo que fazia com certa frequência. Na verdade os tutores e soldados já não se incomodavam mais em persegui-lo como faziam quando era menor, mas ainda assim Iriahin preferia estas roupas do que as pomposas vestes da realeza.

- Não devia fazer pouco caso do amor da jovem Schell, Iriahin. - replicou Aldel, o amigo que estava sentado em um galho de árvore. - Ela parece sincera em suas palavras.

O garoto não poderia ser mais diferente e ao mesmo tempo não poderia ser mais parecido com o príncipe.
Para começar, apesar de fisionomicamente serem muito parecidos com humanos, nenhum dos dois eram.
Enquanto Iriahin pertencia a raça conhecida como Lumnus, Aldel pertencia aos Naithlyns.
E sendo um naithlyn, Aldel era um amante da liberdade e da arte... Pelo que ele entendia por arte.
Esta raça muito peculiar é dotada da capacidade de mudar de forma, abandonar a aparência humana e se transformar em uma espécie de gato de duas caudas.
...Coisa que os lumnus não podem fazer.
Além disso os naithlyns possuem em suas testas uma pequena jóia que realmente faz parte de seus corpos e varia de coloração e forma de acordo com o indivíduo.
Na forma de gatos seus pelos são da cor e padrões de seus cabelos, no caso de Aldel um tom roxo e espetado. Na forma humana o garoto aparenta ter cerca de quatorze anos, com os olhos e a gema em sua testa, ambos em um tom azul escuro.

- Amor?! Há mais amor nesta árvore em que você está que no coração de Schell, Aldel. - replicou Iriahin. - Ela nunca teria escrito esta carta.
- E como você sabe?
- A letra da assinatura era diferente! Provavelmente o pai contratou algum idiota pra escrever e ela foi obrigada a assinar.
- Se você diz... Mas é tua noiva de qualquer forma, não é? Será tua esposa... E não parece uma boa ideia que ela te odeie.
- Que me odeie até seu coração virar pedra! E isso acontecerá muito antes dela me ter como marido.

Aldel, que até então estava sossegadamente deitado em um galho e recostado no tronco da árvore, finalmente abriu os olhos e voltou sua atenção para o amigo.

- O que quer dizer? - perguntou, já prevendo o que viria a seguir.
- Bem... Eu não posso casar se não estiver aqui, não é mesmo?

Sim... Ele estava com aquele olhar...
E Aldel reconheceu no momento em que viu.
Os olhos brilhando por trás de pálpebras semi-cerradas e um meio sorriso no canto dos lábios. A expressão inconfundível que Iriahin tinha no rosto sempre que estava planejando aprontar alguma coisa.

- Ha! Vai fugir?!
- Fugir? - Iriahin fingiu indignação. - Não! Fugir é um termo muito forte para um problema tão pequeno. Vou partir em uma aventura!
- Sei. - Aldel sorriu. - Por que é que prevejo um rei furioso?
- Antes ele furioso do que eu. Alias, pensando bem... Não fui eu quem prometeu nada. Se ele não gostar, que desfaça essa palhaçada de casamento.

Aldel ponderou por um momento e...

- Faz sentido. - disse antes de pular da árvore para perto do amigo. - Pelo visto você já pensou em tudo.

O príncipe apenas sorriu maliciosamente e os dois se colocaram a caminhar.

- Devemos partir o mais cedo possível. Sei que meu pai já deve suspeitar de mim. Mas lembre-se! Isto não é uma fuga, é uma aventura!
- Pois bem, que seja. Em que se baseia esta nossa aventura?

...E lá estava novamente... Aquele olhar na cara deslavada de Iriahin.
Aldel não pode evitar gargalhar.

domingo, 18 de maio de 2014

Yue Jaded - Memórias 01

Aquele não era um dos meus lugares favoritos, ainda assim eu gostava de estar lá e até me sentia confortável.
O cheiro dos livros misturados ao silêncio das pessoas ao redor... As velas e lamparinas quebrando a escuridão da sala sem janelas... Tudo isso fazia com que eu sentisse como se aquele lugar fosse um mundo a parte. Talvez, quem sabe, a ante-sala para diversos outros mundos e realidades que se escondiam em cada um dos livros.
Esta era a biblioteca e dentro dela eu viajei.
Estava ali sentado com uma enorme pilha de livros diante de mim. Estavam espalhados sobre a mesa, abertos em diferentes páginas que eu já nem sequer olhava mais. A concentração para continuar minha pesquisa desaparecera há pelo menos uma hora atrás e desde então não havia voltado.
Olhava ao redor e via uma série de pessoas em roupas de mangas largas e caídas. Vestes espaçosamente confortáveis, mas nem por isso menos estranhas.
...Bem... Mesmo que eu achasse as roupas estranhas, na verdade o estranho era eu. O único ali que não era aluno... O único de vestes claras naquele oceano de panos escuros.
Afastei os livros para o lado, cruzei meus braços sobre a mesa e a seguir deitei minha cabeça. Fiquei olhando fixamente para uma parede a qual tinha certeza absoluta que me separava do mundo externo. Havia neve lá fora caindo e flocos leves e brancos... E eu não precisava de janelas pra saber disso. Eu podia sentir.
Suspirei profundamente...
Meus olhos foram lentamente se fechando... Eu fui começando a adormecer...

- Com licença. - ouvi chamar ao meu lado.

A unica parte de meu corpo que se moveu foram meus olhos. Nem mesmo minha bochecha desgrudou um milimetro sequer dos meus braços quentes enquanto vislumbrava aquela jovem garota parada ao lado da minha mesa com uma porção de livros nos braços.
Seus cabelos castanhos e lisos desciam até pouco além dos ombros e seus olhos verdes reluziam com as luzes das velas sobre a mesa. Sua pele era branca, com algumas pintinhas espalhadas pelo rosto. Havia um contraste entre seus lábios rosados e suas bochechas avermelhadas.
Ela sorriu.

- As outras mesas estão ocupadas. Eu poderia me sentar aqui com você? Digo... A sua é a unica que ainda tem algum espaço.

Acenei que sim com a cabeça, mas ainda sem descolar minha bochecha de meus braços. Eu estava realmente confortável daquele jeito... Provavelmente a cena foi engraçada, pois ela sorriu novamente.
Ou talvez só estivesse feliz por ter encontrado um lugar para despejar aquele monte de livros e se acomodar.
Ela sentou na cadeira a minha frente, abriu uma fresta entra entre os livros que nos separavam e estendeu a mão.

- Meu nome é Danielle. Muito prazer....

"Poxa Danielle... Minha posição confortável..." - Pensei comigo. Mas ainda assim descruzei os braços, apoiei o queixo na mesa e fitando-a nos olhos a cumprimentei preguiçosamente.
Valeu a pena pelos olhos...

- Yue... - Balbuciei. - Yue... "O Estranho".
- Muito prazer, senhor estranho. - falou enquanto apertava minha mão. Fiquei grato por ela ter mãos quentes. - O que está estudando?
- Princípios da Alta Magia... Elementos Astrais... Fundamentos do Equilíbrio... E... - fiz uma pausa, apenas para aumentar o drama. - Também peguei esse livro de culinária.
- Culinária?
- ...Tem ilustrações muito realistas e apetitosas.

Dessa vez eu tive certeza que a risada era devido minha piada.

- Corajoso você. São livros muito avançados... Exceto pela culinária, eu diria.
- Como assim? Não subestime a culinária... Para mim é o pior de todos.

Desde então nos tornamos amigos.
Ela me contou a história de sua vida. Falou a respeito de sua cidade natal, seus amigos de infância, sua família, sonhos e desejos. Em troca perguntava-me a respeito de tudo aquilo que tinha curiosidade sobre o mundo lá fora e a meu respeito.
Não que eu respondesse tudo... Mas não posso dizer que era fácil dissimular e me esquivar de certas perguntas.

- Você está mudando de assunto novamente! - ela dizia. - Afinal, por que você que ser tão misterioso?
- Isso também é um mistério.

Logo a primavera chegou e eu tinha de partir. Os jardins já estavam coloridos e repletos de animais quando fui encontrar Danielle na sala de músicas para me despedir. Do lado de fora, no corredor, eu já podia ouvir o som de um piano e as risadas de Dani.
Bati duas vezes na porta e entrei. Uma amiga de Danielle estava tocando o piano e não se deixou interromper quando me viu entrar. Minha bela amiga no entanto estava sentada na janela que dava para as fontes do jardim com uma perna balançando para fora e assim que me viu arremessou o livro que tinha nas mãos.
Agarrei o livro no ar com facilidade usando apenas uma das mãos. Puro reflexo.
Desde que Dani descobriu esta minha habilidade não havia parou mais de arremessar coisas em mim, assim como havia feito naquele exato momento.
No entanto eu estava encantado com a cena.
A luz do sol da manhã invadia o comodo e a banhava de forma angelical. A aura dourada refletida em seus olhos e cabelos misturava-se com a música e eu não tive qualquer opção a não ser congelar no lugar e observar.

- Yue! - ela chamou. - Yuuuueeeeee!!!

A música já havia acabado e foi sua voz que me trouxe de volta para a realidade.
...Como raios aquele livro havia parado na minha mão?

- Vai ficar aí parado até quando? - ela perguntou enquanto fazia uma careta simpática.

- Eu estava apenas observando a paisagem.
- A paisagem é?
- Sim. Bela paisagem...
- Como você é bobo! - ela riu , se aproximou e me puxou pela mão. - Deixe-me lhe apresentar minha amiga. Yue, esta é Aria. Aria, esta pessoa da qual lhe falei... Yue Jaded.

Ela nos apresentou e notei no fundo dos olhos de Aria uma estranha familiaridade. Podia jurar que a conhecia de algum lugar.

- Yue? Então você é o famoso Yue Jaded? Ouvi muita coisa a seu respeito. - ela olhou para Dani nesse momento. - E posso garantir que nada do que ouvi é mentira.
- Você falou pra ela de como eu estou sempre atrasado, não é? - falei olhando para Dani.

Aria riu e Dani agarrou seu braço enquanto me olhava. Estava notando meus trajes, diferentes naquele dia devido a viajem que deveria fazer.

- Não, nada disso... - Aria continuou. - Ela comentou algo a respeito de "estranho", mas parece que sua adorável amiga prefere ignorar seus defeitos e só ver qualidades. Mas posso dizer duas coisas com certeza absoluta! Uma delas é que estou com ciumes! Vocês ficam tanto tempo juntos que ela nem lembra mais de mim!
- Aaah tá bom! - disse Danielle, apertando o braço da amiga e fazendo careta antes de lhe dar um beijo na bochecha.

Eu ri, mas sabia que aquelas palavras eram sinceras.

- E qual a segunda coisa?
- Você realmente está atrasado.

Coisa estranha de se ouvir de uma pessoa que mal conhece, ainda em um tom mais sério do que o da ocasião.
Durantes poucos segundos tentei compreender aquilo tudo. A sensação de já conhecer Aria... A maneira como ela falava comigo... Ainda assim fazia um esforço para não deixar transparecer minha curiosidade. Então apenas respondi.

- Tem toda razão.

Danielle pediu a Aria que tocasse mais uma música no piano e então, oferecendo sua mão me convidou para dançar.
...Como recusar?

- Esta não parece ser mais uma de suas costumeiras visitas. - ela começou falando. - Tem algo para contar?
- Na verdade... Bem... - senti um peso no coração e alguma coisa dentro de mim me fazia querer ficar. - Eu vim me despedir, Dani.
- Eu imaginei... - ela deu um sorriso triste e forçado, mas baixou a cabeça depois. - Já imaginava que logo isto iria acontecer. Quando você volta?
- Não sei dizer... Pra ser sincero é possível que não volte.
- E ao menos uma vez poderia me revelar um de seus segredos e contar para onde vai?
- Apenas se prometer não me seguir...

Ela permaneceu de cabeça baixa durante algum tempo sem dar qualquer resposta. Continuávamos dançando e eu pude sentir como ela estava confusa. Eu mesmo estava confuso naquele momento. Havia um oceano de duvidas e pensamentos que corriam para todos os lados num fluxo descompassado.

- Não sei o que dizer... - ela falou por fim. Ergue os olhos ao encontro dos meus e isto me preencheu com um profundo frio interior. - Talvez... Boa sorte?
- Isto é você prometendo? - arrisquei e ela simplesmente acenou que sim. - Então... Vou a Artafria, para a fortaleza de Artafria.

Ela parou no lugar e no mesmo instante se afastou de mim. Aria, notando a mudança do clima entre nós, também parou de tocar e passou a nos olhar com curiosidade.

- Por que? Por que você vai pra lá? - Danielle se afastou mais um passo como se visse a morte diante de si. Estava aterrorizada.
- Tem alguém que eu preciso muito encontrar... E algo que eu não posso deixar de fazer.
- Você sabe a respeito das histórias daquele lugar, não sabe? Sabe a respeito da besta? E do grupo enviado por Seriah? Todos que nunca retornaram?

Ela tinha razão. Havia milhões de motivos pelos quais eu não deveria partir. Mas por mais razões que ela pudesse listar, me peguei pensando que o único que realmente importava para mim era ela mesma.
Procurei prestar atenção a tudo o que ela dizia, mas em algum momento eu só consegui pensar que se ela pedisse... Se ela simplesmente pedisse...

- Yue! Você está me ouvindo? Do que é que você está rindo, Yue?!
- Eu estou... Apenas sorrindo.

De repente eu havia percebido. Eu havia entendido o que sentia.
Agora, mais do que nunca, eu tinha que ir.

- Pode ser um pouco de presunção minha, mas não pretendo morrer por lá, Dani. Eu sou Yue Jaded...
- Eu não entendo você. Achava que entendia até esse exato momento, mas... - ela se afastou e sentou na borda interna da janela. Baixou a cabeça e desviou seu olhar para fora. Não soube dizer se estava triste, irritada ou ambas as coisas.

Aria se aproximou de mim e olhou em meus olhos com um ar profundamente interrogativo expresso em seu rosto.

- Você não parece ser a mais ajuizada das pessoas que um dia conheci, mas isto não quer dizer que você não tenha algo ai dentro desta cabeça...
- Cuide bem dela.

Saí dá sala e deixei meu presente junto ao livro que ela havia arremessado em mim.
Me coloquei na estrada dentro de uma carruagem rumo ao mar. Pensava em tudo o que me havia sido dito. No grupo enviado por Seriah. No próprio Seriah e em como as coisas eram quando estava perto dele.
Quando a tarde do terceiro dia de viagem chegou  eu estava olhando através da janela da carruagem. Via as primeiras estrelas refletidas nas escuras águas do oceano para o qual eu seguia.
Muita gente não sabe, mas o vento carrega mensagens de todo canto do mundo.
...Eu sentia o vento... E ouvia suas mensagens.

O vento daquela noite me contava sobre Danielle.

quarta-feira, 14 de maio de 2014

I just want... To know who I am...

Ouvindo: Goo Goo Dolls - Iris
Fazendo: Photoshopando uma abobora e ajudando o Arturo

Noite passada eu deitei e fui dormir. Rolei na cama como muitas vezes costumo rolar.
De um lado para o outro e então de volta para o começo. Relaxando o corpo e voltando a contrair cada parte de mim em um vai e vem de pensamentos.
Minha mente tem um oceano próprio. Com suas ondas, marolas, tormentos e tempestades que as vezes me trazem... Me levam embora... E quando finalmente caí no sono comecei a sonhar.

Vivia uma outra vida minha que não era esta, com pessoas que hoje em dia simplesmente não estão mais por perto... E era tudo tão normal, quando meu ser anormal pode julgar.
Escolhi em meu sonho algumas dúvidas diferentes... E decisões diferentes...
Como o que vestir num dia de trabalho. O que comer na hora do almoço.
Fiz escolhas que fizeram de mim um alguém que não reconheci e que poderia invejar.

E mesmo agora, acordado, depois desse longo dia e lembrando sem qualquer motivo desse sonho tão esquisito...
Eu me pergunto...
Quantos "eus" estarão vagando em diferentes caminhos. Fazendo as escolhas que eu não escolhi. Vivendo as coisas que eu não vivi. Sendo as coisas que não sou e tomando pra si o que eu deixei passar?
Quase sinto ciumes de mim mesmo por todas as vidas que estou vivendo, em diferentes universos e ao mesmo tempo...

Eu vejo tão claramente... Cada um de mim...
Cada meu eu...

E pensando nisso eu quase sinto medo.
Meu estomago se contrai. Sinto um aperto, uma dor no peito...
Eu não sei ao certo por que.
...Não entendo.